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Perigos
e Oportunidades:
A VIOLENTA RAPINA GLOBAL
DOS EUA
E A RESISTÊNCIA DOS POVOS
Por Fátima Resolução
1. Abre-se
um Novo Capítulo
A terça-feira, 11 de Setembro de 2001, poderá vir a ser recordada
na história como o dia em que os EUA declararam guerra contra o
mundo. Tal como o incêndio do Reichstag na Alemanha nazi1,
os acontecimentos desse dia proporcionaram, no mínimo, uma oportunidade
avidamente aguardada para a implementação de medidas que já estavam
em preparação. George Bush, que há muito tinha começado a formar
um gabinete de guerra, avançou com o anúncio do novo consenso que
une grande parte da classe dominante dos EUA. O objectivo não tem
precedentes: um mundo, um império.
A tentativa dos Estados Unidos para redefinir pela força as relações
mundiais é a característica central da situação política actual,
quer nos países onde o exército dos EUA já mata gente ou se prepara
para tal, quer no mundo em geral. Ela está a lançar uma sombra negra
sobre todos os aspectos da vida social, incluindo filmes e jogos
desportivos, como foi possível testemunhar na obsessão política
e sanguinária das Olimpíadas de Salt Lake City.
O aspecto principal desta situação é que ela representa um novo
nível de violência indisfarçada contra as nações e povos oprimidos.
Os EUA decidiram-se a representar o papel de "polícia do mundo"
de um modo qualitativamente novo, a usar a sua capacidade de projectar
uma força militar global para impor e organizar a exploração globalizada
através de uma intervenção militar com a qual nenhuma outra potência
pode rivalizar. Bush anunciou que as nações oprimidas não têm qualquer
direito que os Estados Unidos tenham de respeitar. Proclamou uma
guerra aberta contra todos os que não "partilham os nossos valores"
- ou seja, que não se vergam às ordens dos EUA. Com pouco respeito
pela soberania, pelo direito internacional ou por qualquer outra
restrição, os EUA estão a enviar tropas e a afirmar o seu direito
a constituir e derrubar à vontade governos do Terceiro Mundo para
impor os seus interesses.
Outro aspecto é o de que a cruzada também é dirigida contra anteriores
"aliados" dos EUA. Na tentativa de estabilizar o "ambiente económico
global", os EUA estão a actuar no interesse de todos os países capitalistas
monopolistas, pequenos e grandes. Todavia, e ainda que até agora
Bush tenha tomado cuidado para evitar o isolamento, todos os que
antes eram vistos como aliados dos EUA foram despromovidos ao estatuto
de membros de coligações ad-hoc, onde são admitidos segundo
o bel-prazer dos EUA e sob a condição de serem estes a ficar com
a parte de leão da pilhagem. Mesmo a própria NATO é agora uma mera
sombra do que foi.
Para os povos do mundo, os perigos desta situação são óbvios. O
imperialismo, sob a auto-imposta liderança dos EUA, está disposto
e em condições de intervir directamente onde quer que os seus interesses
o exijam, utilizando a força de uma forma concentrada, numa escala
que não seria possível em anos recentes, e também impondo uma repressão
interna de uma forma que, até muito recentemente, seria considerada
de grandes custos em termos políticos.
Embora os povos do mundo sejam o derradeiro objectivo dos imperialistas,
até agora os seus objectivos imediatos têm sido em grande parte
ex-lacaios e outros reaccionários menores que escaparam de uma forma
ou outra ao seu controlo. Isto tem espalhado a confusão e mesmo
o cinismo, já que as massas se encontram perante uma escolha que
não é de modo algum uma escolha. A mobilização do poderio militar
imperialista sob a liderança norte-americana e a situação política
concomitante (incluindo a mistura de confusão e medo, e mesmo a
desmobilização entre algumas forças de oposição) significa que estamos
agora face a um inimigo temível ansioso pela batalha, pelo menos
pelas batalhas que possa travar em terrenos favoráveis.
As batalhas contra as massas revolucionárias e as guerras populares
são um terreno desfavorável para os imperialistas e eles sabem-no
- e esta é uma razão por que os imperialistas acolheram o 11 de
Setembro como uma oportunidade especial. Mas não importa o que eles
possam querer, já que se estão a converter no alvo das contradições
mundiais e a unir os povos do mundo contra si. Estão uma vez mais
a demonstrar aos povos do mundo que, como Mao escreveu: "O poder
político está na ponta da espingarda".
Os imperialistas dos EUA estão determinados a aproveitar as oportunidades
providas pelo desequilíbrio sem precedentes das forças militares
no mundo de hoje, ainda que os perigos que enfrentam sejam tudo
menos históricos. Eles compreendem que, para atingirem a nova ordem
mundial com que sonham, o mundo terá que passar antes por muita
desordem. Estão a aprontar-se para tal, o que inclui prepararem-se
para esmagar a resistência na sua própria "pátria". Mas é um jogo
arriscado, e traduz um desespero extremo. Se falharem na sua destruidora
abertura do caminho para uma "dominação de espectro total", nas
palavras do Pentágono, nas esferas militar, política e, em última
instância, económica, arriscam-se a perder tudo. A longo ou até
mesmo a médio prazo, a hegemonia dos EUA sobre os outros imperialistas
não pode durar. Nas palavras ásperas de um representante francês
numa discussão acerca das actuais relações entre os EUA e os europeus,
"é insustentável". Mais importante ainda, a disputa norte-americana
por uma nova ordem mundial está a pôr em questão as relações de
poder existentes, gerando perturbações e apelando à resistência
numa escala global. O turbilhão destas diferentes contradições pode
escapar totalmente ao controlo dos imperialistas, mesmo no território
dos próprios EUA, e resta saber quem emergirá vitorioso das tempestades
e do caos que se avizinham.
2. 1989-2001: A Economia, a Política e as Armas da
Globalização
A política é a expressão concentrada da economia, como mostrou
Lenine, e a guerra é a continuação da política por outros meios.
Os objectivos da guerra para os EUA têm pouco a ver com a queda
do World Trade Center e muito a ver com o comércio mundial e o investimento
global2.
O sistema imperialista não mudou de um modo fundamental desde o
séc. XIX, quando a indústria e a banca se fundiram para formar o
capitalismo monopolista e os países ricos ficaram sob a dominação
de um punhado de magnatas financeiros. Desde então o mundo tem estado
marcado pela mais intensa competição entre monopólios rivais e países
capitalistas monopolistas, pela exportação de capital em busca de
um nível de lucros não obtenível nos próprios países imperialistas,
pela divisão do mundo em países imperialistas e em países que eles
oprimem, pela divisão do mundo entre as grandes potências e pelo
esforço constante dos países imperialistas para repartir o mundo
do modo que lhes for mais favorável. E, mais importante, em última
análise, tem estado marcado pelo aparecimento da revolução proletária
mundial.
Este é um sistema que devora os recursos naturais, dilacerando
um planeta destroçado e especialmente o trabalho dos povos do mundo,
incluindo simultaneamente a exploração nos países imperialistas
das mais-valias obtidas em países onde são mantidos salários extremamente
baixos pela persistência de condições semi-feudais, de uma economia
desarticulada, da opressão nacional e de uma completa falta de direitos
políticos. Também é um sistema onde a paz e o lucro são incompatíveis,
onde as "ordens mundiais" aparecem ou desaparecem à medida que os
imperialistas sujeitam as suas vítimas e a sua força relativa variável
é constantemente testada pela guerra.
Em resumo, é um sistema de relações de poder globais baseadas na
força.
Durante o período da "Guerra Fria", a hegemonia dos EUA entre as
potências ocidentais não era disputada. Havia dois blocos políticos
rivais definidos com relativa clareza, e em cada lado só um país
poderia conduzir uma guerra nuclear. Alguns países europeus poderão
não se ter sentido felizes no papel de parceiros júnior dos EUA,
mas a única alternativa era jogar como júnior da União Soviética
- e esse tipo de troca não seria permitida3. Do mesmo
modo, a maior parte dos países oprimidos estava claramente dividida
entre os dois blocos políticos, e o mais leve desafio a esse alinhamento
originou ferozes reacções. Quando em 1970 a eleição de Allende no
Chile ameaçou estender a influência soviética na América Latina,
Washington desencadeou assassinatos em massa4.
E, de repente, um bloco todo-poderoso encolheu-se como uma teia
de aranha com um fósforo.
Simplificando, a URSS teve um controlo e uma influência militar
e política sobre uma grande parte do mundo, mas faltaram-lhe suficientes
recursos de capital para tirar proveito total desee facto, enquanto
que o Ocidente não pôde de forma lucrativa exportar capital para
regiões onde não tinha o controlo político e militar necessário
(como a Índia, por exemplo), e as suas opções económicas estavam
limitadas pela necessidade de se escorar dos seus rivais soviéticos
(na Europa de Leste, por exemplo). A queda da URSS - que foi de
várias maneiras uma vítima da crise económica subjacente que borbulha
por todo o sistema imperialista, no Leste como no Oeste - desfez
em grande parte do mundo arranjos geo-políticos anteriormente congelados.
Isto, juntamente com a aplicação de novas tecnologias desenvolvidas
em grande parte durante a preparação para a guerra mundial, à qual
foi concedida uma súbita pausa, desencadeou novas oportunidades
para a expansão global que trouxe uma década de prosperidade para
alguns e que piorou mais dramaticamente a miséria para mais biliões.
A queda da URSS produziu as condições políticas para um salto qualitativo
nas tendências económicas já em curso. Agora o capital imperialista
poderia penetrar completamente muitos dos mercados mundiais, explorar
o trabalho que antes lhe fora negado, e fazê-lo com uma intensidade
que não fora possível previamente. Muitos chamaram-lhe "globalização".
O fabrico e a distribuição poderiam ser organizados num novo patamar
pelo mundo inteiro; o capital financeiro começou a fluir além das
fronteiras nacionais a uma velocidade e com um volume sem precedentes;
e mesmo as políticas macro-económicas poderam ser coordenadas entre
as potências imperialistas e impostos aos países deles dependentes.
Por exemplo, a Indonésia, a Tailândia, a Coreia e os outros países
do Sueste Asiático, atendendo às "histórias de sucesso" do desenvolvimento
mundial nos anos 1990, pareceriam ter as suas próprias indústrias
e economias independentes, mas o colapso que resultou da deslocação
abrupta do capital financeiro imperialista para outros locais, à
procura de oportunidades especulativas, revelou profundas relações.
A exportação de capital foi, durante muito tempo, uma característica
do sistema imperialista, seja de forma directa - como com a propriedade
britânica do sistema de caminhos de ferro da Índia, ou com a propriedade
francesa das plantações de borracha, ou com a propriedade belga
das minas do Congo - seja de forma indirecta, através do crédito
privado e público que sangram o trabalho do povo de um dado país
e permitem ao capital financeiro estrangeiro extrair lucros mesmo
onde não tem propriedade formal dos meios de produção. Mas o capital
imperialista foi além da agricultura e das matérias-primas, e além
do controlo indirecto da produção para o mercado local (através
da fraude da "substituição da exportação", onde o governo local
possuia a produção mas o capital imperialista dava o tom e colhia
os lucros), para novos tipos de trabalho globalmente organizado
para o mercado global.
Muito frequentemente isto envolve investimento estrangeiro directo
(os EUA e o Japão detêm fábricas na China, por exemplo). Outra forma
que se vem tornando comum é o "outsourcing", através do qual a fabricação
individual de partes e componentes, e por vezes de toda a linha
do produto, é feita através dos "contratadores independentes" do
Terceiro Mundo, completamente dependentes da importação de bens
financeiros do Ocidente. Nestes casos, o "cliente" imperialista
é rei, controlando todos os aspectos do processo em tempo real e
em pormenor, da mesma maneira que a McDonald controla as saídas
da venda a retalho dos seus concessionários supostamente independentes.
Neste momento, os capitalistas ocidentais podem desfrutar o privilégio
de explorar homens, mulheres e crianças do Terceiro Mundo, não só
nas grandes multinacionais, mas também nas empresas de tamanho médio
e até mesmo em algumas de pequena dimensão.
Com o advento das comunicações digitais, foram criados novos sectores
para bombear lucros para o Ocidente. Um dos mais dinâmicos é o "outsourced
business services". Corporações de todos os géneros têm centros
de apoio aos clientes em "offshore", centros de tratamento de dados,
parques de desenvolvimento de software, etc. Assim, muito
do trabalho do "escritório particular", antes executado com salários
de nível ocidental, custa agora muito menos, graças ao atraso e
à miséria em que estes países estão encarcerados, reforçando a rentabilidade
para as companhias envolvidas e para o capital imperialista como
um todo.
A prosperidade do "boom" da era Clinton não se construiu em Wall
Street ou em Silicon Valley, mas nas fábricas de trabalho miseravelmente
pago ao longo da fronteira com o México, nas fábricas das "zonas
de comércio livre" do sudeste da China e da República Dominicana,
nas lojas de vestuário da Turquia e do Bangladesh, nos complexos
de escrita de programas de computador em Bangalore, e assim por
diante. Também estava enraizada na polarização adicional do proletariado
explorado nos próprios países imperialistas, e talvez mais dramaticamente
nos próprios EUA.
Contudo, este desenvolvimento globalizado enfrentou alguns problemas
interligados embora diferentes, na esfera económica e na esfera
política.
O primeiro tem a ver com as leis de capitalismo como sistema, cuja
sobrevivência depende muito de uma crescente exploração extensiva
e intensiva. Apesar da prosperidade para alguns e da propaganda
para todos relativa ao boom dos anos 90, e dos avanços verificados
no crescimento e na produtividade do sistema imperialista global,
comparativamente ao período desde o início dos anos 70 até à queda
da URSS, a taxa de crescimento mundial não voltou às médias atingidas
nas três décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial. O nível
de produtividade relativamente baixo tornou-se um sério obstáculo
à expansão. No final da década tornou-se claro que o "boom"
da era Clinton não podia ser mantido sem um salto qualitativo adicional
na penetração dos países oprimidos.
Mais, para os EUA, como para qualquer capitalista, o problema não
é a rentabilidade global do sistema, mas a sua partilha dos lucros.
O capital europeu e o capital japonês pressionam os EUA como nunca
o haviam feito. Em 1950 os EUA detinham metade da produção mundial;
em 1996 limitavam-se a 20 %. Isto não é exactamente o que pode parecer,
já que os EUA controlam muito do que é produzido noutros lugares
do mundo. Mas tornou-se incontestável que a força económica exclusiva
dos EUA já não podia permitir-se deter a maior parte do mercado
e das oportunidades de investimento face aos outros parceiros imperialistas.
Mesmo na sua própria esfera histórica de influência, na América
Latina, o capital dos EUA já não desfruta de uma posição de monopólio5.
Ao mesmo tempo, o próprio processo de globalização tem gerado violentos
tumultos e resistência. A penetração do capital imperialista está
a deteriorar o tecido social, país atrás de país, minando a base
económica, social e política dos regimes de que a referida penetração
depende. Certas características desta situação são comuns em todo
o Terceiro Mundo6.
A força do capital imperialista e o seu derrube das barreiras de
mercado arrastou alguns países da auto-suficiência de cereais para
a dependência, enquanto noutros, os modos de vida camponeses foram
destruídos por importações de trigo. Em muitos países, partes significativas
das classes médias observam que as promessas oferecidas pela globalização
se esvaziaram como o ar de um balão. Têm MTV e cafés com Internet
mas não têm nenhuma esperança acerca do tipo de vida a que assistem
nas séries da televisão norte-americana e, às vezes, quase não vislumbram
qualquer futuro. Até mesmo entre as classes altas houve uma sensação
crescente de humilhação. Por exemplo, como se sabe agora, sectores
dos estratos superiores na Arábia Saudita consideraram intolerável
a degradação nacional imposta pelos EUA.
Tem-se verificado que é difícil substituir alguns dos regimes-chave
que durante décadas mantiveram os respectivos países sob a alçada
do imperialismo. Suharto, na Indonésia, por exemplo, conseguiu o
poder através da CIA por cima dos corpos de muitas centenas de milhar
de comunistas e outras pessoas assassinadas, e foi uma âncora para
os EUA no sueste da Ásia. A integração crescente da economia da
Indonésia no sistema financeiro e de investimento imperialista,
que era suposto ser uma fonte de estabilidade e de lucros, criou,
ao invés, maior instabilidade. Quando o regime foi ameaçado por
revoltas e lutas de rua, os EUA introduziram um novo fantoche, mas
o sistema de alinhamentos de classes e de grupos nos quais assentava
a dominação dos EUA não pôde ser reposto. A queda de Mobutu no Zaire
colocou problemas semelhantes aos imperialistas.
O México, a Argélia (especialmente o povo da Cabília) e a Coreia
do Sul também vêm sendo varridos por rebeliões e levantamentos.
No Médio Oriente, a determinação dos palestinianos em se erguerem
como seres humanos a qualquer preço modificou toda a estrutura de
dominação imperialista através de Israel e dos seus ajustes com
os regimes petroleo-dependentes, convertendo-se num problema sem
solução para os imperialistas. A América do Norte e a Europa testemunharam
protestos contra a globalização de uma dimensão e combatividade
não vistas em décadas recentes.
Elevada instabilidade, descontentamento crescente, vagas de resistência
e, em alguns lugares, luta armada e até mesmo guerra popular - assim
se descreve a maior parte do mundo na véspera do 11 de Setembro.
Como analisava o Movimento Revolucionário Internacionalista em 2000:
"Ainda que não estejamos a atravessar a mesma maré cheia de luta
revolucionária à escala mundial que testemunhámos no passado e que
seguramente veremos de novo, podemos falar com confiança de uma
nova vaga da revolução proletária mundial que emerge". ("Entrevista
com o Comité do MRI", AWTW 2000/26.)
Todos os imperialistas têm enfrentado problemas semelhantes em
graus variados, que só os impediram de enviar tropas e "esmagar
os nativos". Em primeiro lugar, a maioria deles não o poderia fazer,
mesmo que quisessem - os seus exércitos foram estruturados para
lutar numa guerra mundial inter-imperialista, mais precisamente
com a União Soviética, e não, como se verá, para o tipo de guerras
que precisam de fazer na actualidade. Associado a isto, todos eles,
de modos diferentes, têm que lidar com sentimentos populares fortes
contra estes tipos de guerras, um legado, entre outras coisas, do
envolvimento nas longas e fracassadas guerras coloniais dos anos
1950 e 1960, especialmente a do Vietname.
Mas a necessidade de uma mais directa intervenção imperialista
foi-se tornando crescentemente clara a todos eles. Nos anos 90,
aconteceu sob o pretexto de "tarefas humanitárias" e de protecção
dos "direitos humanos". Surgiu em França o conceito de "direito
de intervenção", que secundariza a soberania nacional de determinados
países face à importância universal dos direitos humanos. O significado
prático deste conceito sob as circunstâncias do mundo actual foi
concretizado quando o ex-radical francês e fundador dos Médicos
Sem Fronteiras, Bernard Kouchner, foi designado o administrador
civil da ocupação da NATO no Kosovo. O mundo anglo-saxónico, como
sempre, é mais embotado: a tradução inglesa do "direito de intervenção"
é aquilo a que o bardo do colonialismo britânico, Rudyard Kipling,
chamou "o fardo do homem branco". Esta ideia tem vindo a ser reciclada
sob a capa humanitária como o doloroso dever do Ocidente de socorrer
nações menos afortunadas. Algum peritos começaram a congregar-se
em torno do termo "recolonização", simbolizada pelo circuito por
anteriores colónias britânicas em África realizado em 2002 por Tony
Blair. Até mesmo a prisão de Pinochet, o líder do golpe de 1973
no Chile, pode ser vista como parte desta criação de uma atmosfera
na qual os países imperialistas auto-proclamam a sua superioridade
moral, que poderia ser estendida à superioridade legal... com implicações
políticas e militares muito reais, ainda que subtis7.
Ao mesmo tempo, tem sido a rivalidade entre as potências imperialistas
o factor principal que impede a imposição das condições de exploração
de que todos eles necessitam. Isto ficou claro no desmantelamento
da Jugoslávia em que a Alemanha, a França, a Rússia e os EUA rivalizaram
na pilhagem8; nas horrendas guerras por procuração na
África Central onde coube à rivalidade EUA-França o papel principal
no genocídio; e na Colômbia onde o apoio europeu de ocasião (especialmente
alemão) aos movimentos de guerrilha impediu os EUA de "pacificarem"
o país e de o "tornarem seguro para o investimento estrangeiro".
Mas também parece ser verdade de um modo mais vasto em grande parte
do Terceiro Mundo - a rivalidade entre os imperialistas foi um impedimento
à imposição da estabilidade política de que todos eles precisavam.
A questão dos regimes nos países oprimidos é a chave para tudo
isso. Sem estruturas políticas e militares que o constranjam, o
capital local não pode ser subordinado e as aspirações dos povos
não podem ser suprimidas. O estado neo-colonial é a mais fundamental
das estruturas de dominação do imperialismo. Há poucos locais no
mundo actual onde outra potência imperialista, que não a norte-americana,
possa impor o seu próprio regime. Isso tem consequências sérias
ao nível das oportunidades de exploração por parte da potência dominante
e das suas relações com os outros exploradores imperialistas. Como
disse Lenine, sob o imperialismo, o mundo só pode ser dividido tendo
em conta o poder militar relativo das potências que fazem a pilhagem.
3. Desenvolvimento desigual
Um relatório escrito em 2001 sob a direcção do Secretário norte-americano
da Defesa Rumsfeld previa que o investimento cada vez mais globalizado
produziria um crescente "distanciamento entre os que tudo têm e
os que nada têm", mas que "a sinergia da superioridade no espaço
com a superioridade em terra, mar e ar" dos Estados Unidos poderia
"proteger os interesses e investimentos dos EUA" e dar-lhes "uma
vantagem militar extraordinária". Uma vantagem contra os que resistem
a ser globalizados, por um lado. Uma vantagem sobre os outros rivais
imperialistas dos EUA, por outro.
Quando o World Trade Center e o Pentágono foram atingidos, as potências
da NATO invocaram, pela primeira vez na sua existência, uma cláusula
do tratado que significava considerarem que o ataque tinha sido
contra todos os estados membros. Mas quando os EUA invadiram o Afeganistão
e todas elas quiseram partilhar o sanguinário banquete, foi-lhes
dito sem cerimónias: "não nos chamem; nós chamar-vos-emos". As disponibilizações
de tropas da França, da Alemanha e da Itália foram inicialmente
desprezadas. Finalmente, os EUA encarregaram o Reino Unido de uma
força claramente não-NATO limitada a Cabul e ficaram com o resto
para si. De seguida, sem convidar mais ninguém, os EUA enviaram
tropas para as Filipinas, uma sua ex-colónia, e declararam que o
próximo objectivo era o Iraque, apesar da oposição a essa guerra
de quase todos os outros países da NATO. As relações dos EUA com
os seus ex-aliados da NATO ficaram tão tensas que o Ministro alemão
dos Negócios Estrangeiros reclamou que "os membros da Aliança não
são satélites", considerando que os EUA estavam a tratar a nova
Alemanha unificada do mesmo modo que a antiga URSS tratava a Alemanha
de Leste.
Será que o ministro alemão se opõe à guerra norte-americana no
mundo? Como o resto dos seus parceiros europeus, ele de facto defende-a
e dá o seu melhor para que o seu país lá esteja9. O problema
é que os países europeus não estão militarmente em condições de
se juntarem à agressão desencadeada pelos EUA de um modo que fizesse
diferença e, na ausência desse poderio bélico, os EUA não só se
desinteressaram da sua ajuda, como usaram mesmo a sua superioridade
para servir os seus próprios interesses, independentemente dos dos
outros e mesmo em oposição a eles. Neste momento, os outros imperialistas
não têm outra escolha senão pagar um preço indesejável por um serviço
do qual dependem.
Nenhum outro país pode competir com os EUA em termos de "projecção
de poder" - a capacidade de enviar tropas e equipamento depressa
e maciçamente. Isso inclui agora a Rússia - e isso marca uma mudança
significativa no mundo após a Guerra do Golfo. A anterior URSS desintegrou-se
e o seu poderio militar desabou quando a base económica em que assentava
se revelou incapaz de o sustentar. Por exemplo, a desorientação
associada ao naufrágio do submarino Kursk, demonstrou como pouco
restou da outrora poderosa marinha nuclear da Rússia10.
A Alemanha foi humilhada nas suas tentativas precoces de estabelecer
um precedente enviando tropas de combate para o Afeganistão, quando
o transporte aéreo foi inviabilizado por vários dias devido ao mau
tempo. Teve de pedir emprestados Ilyushins de fabrico russo para
fazer chegar abastecimentos ao Afeganistão. De facto, pelo menos
neste ponto, a Europa nem sequer fabrica aviões de transporte militares
para competir com os de longo alcance e de transporte de tropas
dos EUA, e se os tivesse que comprar à Boeing tal acarretaria o
fim da sua articulação de esforços para rivalizar com os esforços
dos EUA para monopolizar a construção de grandes aeronaves (um monopólio
de significado económico e militar estratégico). As tentativas para
conseguir uma força europeia conjunta têm dado em nada. Só a França
tem aperfeiçoado a sua capacidade para enviar tropas das forças
especiais para massacrar e tiranizar pequenos países, especialmente
em África11. Além da Rússia, só duas outras potências,
Inglaterra e França, têm mísseis nucleares e uma marinha nuclear12.
A Inglaterra é hoje o único aliado a longo prazo dos EUA, devido
à "relação especial" que envolve profundamente capitais britânicos
e norte-americanos13. Londres está mais perto de Manhattan
que de Paris. Quanto à França, por vezes descrita como aquilo que
na actualidade mais se assemelharia a um rival para os EUA, o seu
único porta-aviões com capacidade nuclear e ícone do estatuto nuclear
do país, o Charles de Gaulle, passa tanto tempo em reparações como
a navegar pelos mares.
Porque deveriam os governantes dos EUA contentar-se com uma "política
de coligação" quando eles têm quase o monopólio dos meios de intervenção
militar massiva? O seu orçamento militar é maior que o de todos
os seus potenciais rivais combinados; os seus gastos vão subir 15
por cento só no orçamento do próximo ano - cerca de 50 biliões de
dólares, o maior aumento em duas décadas e uma quantia que só por
si ridiculariza os gastos militares da maioria das potências da
NATO. Em Fevereiro, na conferência internacional de Munique sobre
segurança, o secretário-geral da NATO considerou que as potências
europeias se arriscam a ser reduzidas ao estatuto de "exército pigmeu".
O International Herald Tribune noticiou a seguinte ocorrência:
"Quando um participante alemão expressou a sua intranquilidade sobre
as ameaças dos EUA contra o Iraque, [o representante dos EUA] McCain
ripostou, 'Eu diria ao nosso amigo alemão para sair e comprar algumas
armas' antes de questionar as intenções ou o poderio dos EUA".
Já muito foi dito acerca do desenvolvimento de uma nova doutrina
militar em que a combinação do poder industrial simples (gigantescos
aviões de transporte de tropas, bombardeiros de longo alcance, helicópteros
de guerra e outras aeronaves especializadas) e da alta-tecnologia
(bombas de elevada precisão e mísseis de cruzeiro guiados por satélite
e os apropriadamente denominados parasitas-predadores - "Predator
drones" em inglês -, comunicações digitais avançadas e inteligência
electrónica) poderiam tornar possível a pequenos contingentes de
tropas de operações especiais actuar em conjugação com a carne para
canhão local, lutar de modo a reduzir a necessidade de cooperar
com os outros imperialistas e ainda assim mantendo reduzido o número
de baixas entre os norte-americanos. Esta é uma doutrina militar
especificamente projectada para lutar internamente e com as anteriores
colónias, não uma guerra mundial inter-imperialista. Nenhuma outra
potência imperialista tem um tal exército, e nenhuma, pelo menos
por agora, pode dispor do tipo de rápidas reformas das suas forças
armadas que a administração Bush está determinada a conseguir nos
próximos cinco anos, com um custo de um quarto de bilião de dólares.
Mas este desequilíbrio militar existe em grande parte por razões
históricas, em particular pela divisão militar do trabalho desenvolvida
pelas potências da NATO durante o período em que se preparavam para
uma guerra contra o bloco soviético na Europa central, e esse desequilíbrio
não pode manter-se. Mais de 3% do produto interno bruto dos EUA
é gasto anualmente em despesas militares directas (não contando
pagamentos de empréstimos de anteriores gastos, pensões militares,
etc.). Isto representa duas vezes a média europeia - mas nos últimos
anos o Reino Unido e a França não ficaram muito atrás e por vezes
chegaram a equiparar-se. A Alemanha e o Japão também têm uma nova
trajectória. De facto, a doutrina Bush não pode senão dar um novo
alento militarista à Europa e ao Japão. Por exemplo, o Presidente
francês Chirac pediu recentemente à Europa que desenvolvesse o seu
próprio sistema de satélites de posicionamento geográfico (GPS),
chamado Galileo, de elevados custos, em vez de ficar na dependência
do sistema GPS dos EUA num conflito militar, com o risco acrescido,
afirmou Chirac, de se tornarem "vassalos" dos EUA. Ainda que inicialmente
relutante, a Alemanha decidiu apoiar este grande esforço.
Por um lado, a Europa é economicamente aproximadamente igual aos
EUA, e não há nenhuma razão para que o actual desequilíbrio militar
continue indefinidamente. Por outro lado, actualmente tal desequilíbrio
existe. Essa foi uma razão que levou os EUA a agir, se não num qualquer
dia específico de Setembro, pelo menos em breve.
4. De Superpotência a Unipotência
Um conjunto de adeptos da guerra, agora confortavelmente instalado
no gabinete de Bush, começou a teorizar uma nova ordem mundial no
início dos anos 90. O seu principal argumento é que a rendição do
principal rival dos EUA, a URSS, foi tão fácil que os EUA negligenciaram
levar a cabo a outra metade do que precisavam fazer - deixar de
se preocupar com os seus "aliados" e tomar de assalto o mundo inteiro.
Em 1992, Paul Wolfowitz, agora adjunto de Rumsfeld, e L. Lewis
Libby, agora conselheiro de segurança nacional do vice-presidente
Cheney, escreveram um relatório confidencial para o Pentágono intitulado
Guia de Política de Defesa 1992-1994. Apelavam a que se "impedisse
qualquer 'potência hostil de dominar grandes regiões' cujos recursos
permitiriam atingir um estatuto de grande poder, desencorajasse
tentativas por parte das nações industriais avançadas de desafiar
a liderança dos EUA ou a transformar a ordem política e económica
estabelecida, e impedisse o aparecimento de um futuro potencial
competidor global"14. Esse relatório cunhou a frase "dominação
benigna" - quer dizer, benigna para os outros imperialistas.
Embora esse documento secreto tenha sido escrito logo após a guerra
com o Iraque e não muito depois do colapso da URSS, os objectivos
postulados não eram possíveis nem necessários há uma década atrás,
da mesma maneira que o são agora, pelas razões indicadas - por um
lado, o declínio posterior do poderio da Rússia e, por outro, a
crescente necessidade aguda de intervir no Terceiro Mundo e as contradições
entre as potências imperialistas. Mas é agora a política conjunta
da classe dominante dos EUA - pelo menos enquanto parecer que resulta.
A posição dos seus autores dentro da equipa de Bush, em que os postos-chave
estão ocupados por figuras militares ou por civis com um longo currículo
como peritos militares e veteranos da "segurança nacional" ligados
a esta linha, constitui testemunho da adopção consciente desta nova
linha.
A advertência de Bush de que "ou estão connosco ou contra nós"
é dirigida tanto contra o "inimigo" como contra os ex-"amigos".
Um "membro da administração" dos EUA não identificado punha as coisas
deste modo. interpretando as observações do general Colin Powell
acerca das precauções dos ex-aliados dos EUA sobre a invasão do
Iraque: "Nalgum momento, os europeus com borboletas no estômago
- muitos dos quais quiseram ver-nos entrar no Afeganistão - verão
que têm uma escolha bipolar: podem estar com o projecto ou afastar-se"15.
Afastar-se, aqui, significa sair do caminho dos EUA ou desaparecer.
Depois da queda do bloco soviético, muito se disse acerca do aparecimento
de um mundo multi-polar. O plano de Bush é para um planeta unipolar.
Desde a Alemanha nazi que não voltara a existir uma proposta aberta
para a hegemonia mundial. Ou talvez seja mais correcto dizer que
desde o fim da Segunda Guerra Mundial, quando os EUA começaram a
preencher o lugar deixado pelo passado colonial dos seus dois ex-inimigos
(a Alemanha e o Japão) e dos seus aliados (o Reino Unido e a França)
- mas tiveram então um opositor de peso, o bloco socialista liderado
pela União Soviética, depois transformada pela contra-revolução
num bloco social-imperialista (socialista em palavras, imperialista
nas acções), rival de igual estatura aos EUA.
O processo de descomprometimento dos EUA em relação às obrigações
internacionais começou bem antes do 11 de Setembro, com a rejeição
norte-americana de quase todos os tratados e convenções internacionais
formulados. Em retrospectiva, a decisão de Bush de retirar os EUA
do acordo de Quioto de 1997 foi uma das primeiras mensagens especiais
acerca das intenções norte-americanas perante um mundo incrédulo:
os EUA não permitiriam ver-se restringidos de qualquer forma, mesmo
que fosse acerca da questão do seu sagrado direito a poluir. Havia
também uma mensagem ideológica - nada é mais importante que o lucro,
e os dirigentes dos EUA têm tanto desprezo pelo planeta como pelos
seus povos. Um acontecimento igualmente chocante em diplomacia internacional
ocorreu quando os EUA recusaram assinar um pacto internacional contra
a lavagem de dinheiro e a fuga aos impostos. As razões para tal
só vieram a lume mais tarde, quando o escândalo da Enron revelou
como se tornara vital para o funcionamento das multinacionais a
utilização dos bancos "offshore" sem regras. Mesmo antes de Bush,
os EUA já haviam rejeitado tratados internacionais contra o desenvolvimento
de armas biológicas - os mesmos EUA que ameaçam arrasar o Iraque
para forçar Saddam Hussein a receber os inspectores internacionais
de guerra biológica que são barrados do território norte-americano.
Os EUA também inviabilizaram uma convenção que teria convertido
o Tribunal Penal Internacional numa instituição permanente, apesar
de darem a sua aprovação ao actual julgamento de Milosevic. Objectaram
com o fundamento de que tal tratado poderia significar que algum
dia soldados ou oficiais norte-americanos poderiam ser acusados
de crimes de guerra e, assim sendo, pediram a abolição do Tribunal.
A administração Bush inverteu o curso que fora traçado pelo pai
Bush e por Clinton quanto a armas nucleares. Em vez de destruir
mísseis para emparelhar com o número destruído pela Rússia, os EUA
puseram-nos de lado para "manutenção da segurança" e aumentaram
os gastos no desenvolvimento de novas armas nucleares. Os EUA estão
mesmo a considerar a retomada de testes de aperfeiçoamento de bombas
nucleares. A classe dominante dos EUA também ratificou outro projecto
de Bush, que lhe é querido desde os seus primeiros dias na administração,
o de reavivar o plano de Ronald Reagan para um sistema de míssil
anti-balístico. Ao contrário dos seus predecessores, Putin aceitou-o
sem protesto - com muita consternação dos governos da Europa continental.
A renovada necessidade norte-americana por estas armas e pelo antes
desacreditado sistema de ABM não vem de quaisquer segundos pensamentos
acerca dos perigos da antiga União Soviética ou de quaisquer estados
"malvados", como o único país a ter usado armas nucleares gosta
de dizer. Na actualidade, nenhum estado no mundo poderia conceber
o lançamento de um ataque nuclear contra os EUA. Durante a Guerra
do Golfo, Saddam Hussein, frequentemente citado como a razão pela
qual os EUA precisam de um escudo de mísseis nucleares, nem sequer
fez uso das suas alegadas ogivas de guerra química contra um opositor
muito menos perigoso, Israel, por medo das consequências. Retendo
milhares de mísseis e erguendo um escudo anti-balístico de mísseis
capaz de derrubar um número limitado de rockets, os EUA visam neutralizar
qualquer tentativa das potências nucleares menores a usar armas
nucleares para resistir a uma invasão norte-americana convencional
e posiciona-se para lançar um primeiro ataque sem medo de retaliação16.
Em resumo, os EUA vêm proclamando aberta e descaradamente que farão
tudo o que considerarem necessário para servir os seus próprios
interesses. Um adjunto de Powell proclamou que, no que diz respeito
aos EUA, "o direito internacional não existe". Um especialista referiu-se-lhe
como "a desregulação do mercado de violência internacional" - e
tal como a ideia dos EUA de desregulação do comércio global (do
aço, por exemplo), o objectivo é libertar os interesses norte-americanos
de todos os constrangimentos. Porém, tal não significa que quem
quer que seja possa fazer o que quer que seja contra os interesses
dos EUA.
Claro que o direito internacional significa a lei imperialista,
acordos alcançados pelas regras dos países mais poderosos, projectadas
para proteger os seus interesses comuns à custa de todos os outros.
E, de facto, os EUA, como qualquer país imperialista, nunca reconheceu
o direito internacional quando os seus interesses ditaram o contrário.
A invasão do Panamá em 1989 por Bush-pai é disso um exemplo. Os
EUA criaram Noriega e enviaram as suas tropas para o apear quando
lhes aprouve. Mas, significativamente, os EUA preservaram algumas
das aparências de observar o direito internacional embora estivessem
basicamente a escarnecê-lo. Por exemplo, Noriega foi julgado como
prisioneiro de guerra e desde então permanece numa prisão que respeita
a Convenção de Genebra. Os prisioneiros do George-filho na base
naval norte-americana de Guantanamo, Cuba, estão a ser tratados
muito diferentemente, em termos legais e em termos humanos. O desafio
norte-americano do direito internacional tornou-se tão extremo que
quando o Tribunal dos Direitos Humanos para a Bósnia (criado por
insistência do Ocidente) ordenou a libertação por falta de provas
de seis homens originários do Médio-Oriente, depois de terem sido
acusados de planear um ataque contra a Embaixada dos EUA em Sarajevo,
onde viviam, tropas dos EUA sequestraram-nos (com a cumplicidade
provável do governo bósnio) no meio da noite e levaram-nos para
Guantanamo. Aí se encontram presos, juntamente com britânicos, franceses
e elementos de outras nacionalidades, tendo sido ignorados os pedidos
para jurisdição ou mesmo acesso por parte dos seus países.
Os EUA admitem abertamente que estão a submeter os homens de Guantanamo
a um interrogatório implacável, a manipulação psicológica (incluindo
privação sensória e um tal isolamento que os conduz a nem sequer
saberem onde estão) e outras formas de tratamento de que os prisioneiros
de guerra estão supostamente protegidos. Desde que o uso da tortura
foi abertamente defendido na imprensa dos EUA e europeia, não é
difícil de adivinhar o que está a acontecer numa ilha distante fechada
aos meios de comunicação e aos observadores internacionais. (Quando
foram desencadeados protestos, a Cruz Vermelha investigou e fez
um relatório - um relatório secreto, só para os olhos dos EUA).
Por engano ou por arrogância, o próprio Pentágono lançou a famosa
fotografia que mostra esses prisioneiros algemados com os olhos
e orelhas cobertos. Porque está Bush tão empenhado em que esses
homens não sejam reconhecidos como prisioneiros de guerra, de acordo
com as Convenções de Genebra, apesar do alvoroço internacional em
torno do assunto e das suas próprias pretensões de que é um mero
"assunto para advogados" que não faria diferença prática? "Preservar
a flexibilidade", escreveu um ajudante de Bush num memorando.
"Flexibilidade" é exactamente a questão para os EUA, em todos os
assuntos. Os EUA querem que o mundo saiba que farão o que quiserem
a quem quiserem, ponto final, e que há sempre lugar nas jaulas de
tigre de Guantanamo para qualquer um que não o aceite.
Guantanamo não é só um campo de concentração para prisioneiros
do Afeganistão. É um símbolo do que os EUA pretendem fazer a qualquer
um que esteja no seu caminho. Porém, os EUA reconhecem implicitamente
a divisão do mundo em nações opressoras e nações oprimidas, e não
se propõem, pelo menos para já, enviar Marines para retirar Chirac
de França. A existência de Guantanamo pretende pôr alguma ameaça
prática à advertência "Alinhem com o plano ou desapareçam".
Este novo unilateralismo não significa que os EUA pretendem agir
sós. Bush prestou grande atenção à construção ad-hoc de coligações
sob a sua liderança. Haverá sempre cooperação inter-imperialista
desde que tal sirva os seus interesses comuns - mesmo agora soldados
franceses estão a trabalhar lado a lado com soldados norte-americanos
na construção a longo-prazo de uma base aérea no Quirguistão. Mas
no grau possível (e esta poderia ser uma questão muito vasta), os
EUA pretendem agir depressa e decisivamente sem sequer tentarem
alcançar consensos, impondo as suas decisões em façanhas e deixando
que os outros expressem os seus escrúpulos e subtilezas depois,
sem a limitação de tratados com os seus aliados, supremo na sua
própria soberania e considerando desprezível a dos outros (especialmente
a das nações oprimidas). Wolfowitz explica que "não haverá uma coligação
única mas antes coligações diferentes para diferentes missões" em
que os EUA esperam trabalhar principalmente com "forças locais"
(i.e. exércitos-fantoche), de preferência aos seus "sócios" e rivais.
Os aliados mais íntimos dos Estados Unidos tornaram-se seus subalternos,
imperialistas que reconhecem a sua fraqueza e aceitam o projecto
unipolar nessa base. Nunca a Rússia pareceu tão servil para os EUA
como desde 11 de Setembro. Vladimir Putin tornou-se de repente o
"melhor amigo" de Bush através de uma combinação de engodos e ameaças.
Entre os primeiros encontra-se o entendimento ou pelo menos a esperança
de que os EUA derrubarão o movimento pela independência da Chechénia,
encarado pela Rússia como parte de uma campanha para a reduzir a
pedaços cada vez menores. Putin apoiou a invasão do Afeganistão
e informou o seu "melhor amigo" que não levantaria objecções a um
ataque dos EUA ao Iraque, ambos anteriormente objecto das ambições
predatórias da Rússia. Note-se que, inesperadamente, Putin consentiu
na extensão da NATO até à actual fronteira da Rússia, incluindo
os estados bálticos que pertenceram até há uma década atrás à URSS
e aceitou a construção de 13 novas bases norte-americanas e o estacionamento
permanente de tropas dos EUA no que fora antes a Ásia Central soviética.
Deu mesmo a sua bênção à actual incursão norte-americana na Geórgia,
que fora também até recentemente parte da URSS, e é agora, finalmente,
um títere construído militarmente pelos EUA e pela Turquia contra
a Rússia. Isto não significa necessariamente que toda a classe dominante
russa partilhe a interpretação que Putin tem dos seus interesses,
e é certo que os interesses imperialistas da Rússia darão aso a
uma mais severa disputa com os EUA no futuro.
5. A Geopolítica do Apocalipse
A lista de Bush de países a ser atacados, ou pelo menos ameaçados,
é altamente instrutiva. O plano para preparar o mundo para a pilhagem
norte-americana pode ser louco, mas é profundamente meditado (e
amplamente apoiado pela classe dominante dos EUA). Por exemplo,
depois de uma longa disputa entre as várias potências com influência
no Afeganistão para constituir um novo governo interino, os EUA
desdenharam a Aliança do Norte, cujas tropas fizeram a maior parte
do combate aos Taliban, mas que foi considerada demasiado amigável
para com os rivais dos Estados Unidos, e pura e simplesmente colocaram
lá o seu homem, Hamed Karzai, antigo conselheiro da companhia californiana
Unocal, a qual pretende construir um oleoduto que, aos olhos ocidentais,
seria a única coisa que poderia dar qualquer valor ao país. (O enviado
especial dos EUA, Zalmy Khalilzad, também constava da folha de pagamentos
da Unocal.)
Ou vejamos o Iraque. A princípio, alguns comentadores não acreditaram
que Bush desencadearia uma batalha tão pouco ao gosto dos ex-aliados
dos EUA na Guerra do Golfo. O contraste entre a insistência de Bush
e aquela oposição tem sido tão surpreendente que um comentador de
um jornal considerou que a Europa "parecia tentar fazer do Iraque
a questão prioritiária da hegemonia norte-americana na política
mundial, mais do que a brutalidade e a deslealdade de Saddam". De
facto, isso é uma avaliação precisa do que está em jogo17.
Como escreveu recentemente Henry Kissinger, antigo parceiro de Rumsfeld
na equipa de Nixon, "A questão não é se o Iraque esteve envolvido
no ataque terrorista aos Estados Unidos (...) O desafio do Iraque
é essencialmente geopolítico".
Apesar dos esforços conduzidos pelos EUA para boicotar o Iraque,
a França, a Alemanha, a Inglaterra e a Rússia têm negociado abertamente
com o governo iraquiano. De facto, praticamente todo o mundo, desde
há anos e quase como sempre, tem realizado negócios com aquele país,
inclusive companhias norte-americanas (o vice-presidente Cheney,
nos seus dias de barão do petróleo, envolveu-se numa tentativa de
bater os europeus nos negócios com Saddam). Desde que Bush-pai acabou,
sem ir até ao fim, a sua guerra no Iraque - aparentemente por perceber
que apear Saddam poderia conduzir ao desmembramento de Iraque e
que, assim sendo, desestabilizaria os interesses norte-americanos
em toda a região -, o regime tornou-se um símbolo dos limites do
poderio norte-americano. Parece ser principalmente isso que Bush
quer derrubar. Quer demonstrar do modo mais convincente possível
que os desenvolvimentos da última década e a atitude adoptada pelos
EUA nessa base significa que as anteriores limitações já não se
aplicam18.
A adição súbita do Irão ao "eixo do mal" feita por Bush em Janeiro
confundiu muitos observadores. Afinal de contas, as recentes concessões
daquele regime aos EUA incluíram um acordo não publicitado para
resgatar os pilotos dos EUA, a cooperação próxima na mediação com
o governo interino do Afeganistão, dominado pelos EUA, e a permissão
aos EUA para descarregarem abastecimentos para o Afeganistão através
de portos iranianos19. Aparentemente os mullahs não se
curvaram o suficiente para agradar a Bush que exigiu mais e ameaçou
destruir o regime de qualquer modo. Uma das razões porque o governo
iraniano pensou que poderia manter a aparência de algo próximo de
beijar o rabo gordo do Grande Satã foi a forma como tinha dado as
boas-vindas aos investimentos alemães, franceses e de outros países
europeus. Um país que vive da venda de petróleo necessita pelo menos
de uma França para o explorar. Parece que ser total e abertamente
servil aos EUA em termos políticos e também aos seus interesses
económicos, são os dois lados da mesma moeda. A ameaça das tropas
norte-americanas no Iraque parece ter apressado o regime Khamenei-Khatami
a render-se mais cedo aos EUA, calando as forças afegãs no Irão
que se opuseram ao governo de Bush no Afeganistão e pressionando
os estrangeiros (inclusive cidadãos europeus) que eram desfavoravelmente
encarados por Washington. Mais recentemente, o Irão indicou que
permitiria que o Conselho Nacional Iraquiano, sob o patrocínio dos
EUA, e presumivelmente a escolha dos EUA para substituir Saddam,
abrisse escritórios em Teerão, a capital do Irão, e difundisse apelos
aos derrube de Saddam a partir de solo iraniano - um gesto que não
se esperava de um regime em qualquer tipo de "eixo" com o Iraque.
A movimentação dos EUA para invadir o Iraque pode permitir-lhes
dobrar completamente o actual regime iraniano à sua vontade, ou
os EUA podem esperar por uma ruptura entre os sucessores de Khomeini
e o que é considerado um governo aceitável. Mas de qualquer modo,
a chave para forçar as alterações que os Estados Unidos querem é...
a força.
O envio de tropas norte-americanas para o Iémen é outra peça do
quebra-cabeças. Só por si, o Iémen não tem nenhuma importância para
os EUA. O que está em jogo são as bases navais norte-americanas
no Iémen, o poder naval norte-americano estacionado naquela zona
do Golfo e, na realidade, o sonho norte-americano de converter o
Golfo num lago americano.
É sabido porque é estratégico o Golfo: por causa do petróleo. Mas
não é só uma questão de ganhar dinheiro. A anterior citação do relatório
Wolfowitz-Libby acerca de regiões e recursos estratégicos lembra
as observações de Lenine sobre a importância do petróleo durante
a Primeira Guerra Mundial: os imperialistas consideram o petróleo
um recurso estratégico que não só deve ser controlado por si só,
mas também para ser negado aos rivais. De facto, hoje a Europa é
mais dependente do Médio Oriente em petróleo que os EUA, e o Japão
ainda mais. Os lucros potenciais são enormes, mas é ainda mais importante
que quem controla essas torneiras de petróleo tem as mãos na garganta
das economias europeias e japonesa.
É significativo que as Filipinas tenham sido o segundo país a ser
invadido pelo EUA depois do Afeganistão, em Outubro de 2001, e envolvendo
números só superados pelos do Afeganistão. (Aproximadamente 900
militares norte-americanos, 650 dos quais são forças de combate;
alguns deles enviados para patrulhar as zonas rurais conjuntamente
com tropas do governo filipino.)
As Filipinas tornaram-se uma colónia norte-americana quando os
EUA se aproveitaram de uma revolta popular contra a dominação espanhola
e deitaram a mão às ilhas20.
Foi dito que o exército norte-americano adoptou inicialmente a
pistola semi-automática de calibre .45 porque os resistentes filipinos
resistiram tão veementemente que não puderam ser sustidos através
de balas menores. As ilhas tornaram-se um importante posto militar
avançado para os EUA no Pacífico, como se viu nas batalhas estratégicas
sobre as Filipinas na Segunda Guerra Mundial. Depois da guerra,
os EUA foram forçados a abrir mão do controlo político directo das
Filipinas mas mantiveram o controlo económico e o controlo político
indirecto. A base naval de Subic Bay permaneceu o ancoradouro-chave
dos EUA no Pacífico, até que os EUA pensaram ser melhor sair por
sua própria inicaitiva após um levantamento popular e a queda da
ditadura de Marcos - cujo regime fora patrocinado pelos EUA - nos
anos oitenta. A rebelião dos povos muçulmanos oprimidos das ilhas
do sul das Filipinas foi durante muitos anos um sério obstáculo
para os regimes patrocinados pelos EUA, mas as intenções dos EUA
não se limitam às reputadas fortalezas muçulmanas na ilha de Sulu.
De acordo com novos relatos, tropas dos EUA que voavam sobre o norte
de Luzon, no lado oposto do arquipélago, trocaram fogo com tropas
do Novo Exército Popular dirigido pelo Partido Comunista das Filipinas.
Os EUA pretendem claramente fazer maiores movimentações para apertar
o controlo da sua ex-colónia. Estes objectivos não se limitam às
Filipinas. Os EUA negoceiam agora também o direito de acesso à enorme
base naval de Came Ranh no Vietname, que os EUA construíram durante
a sua guerra fracassada para conquistar o Sueste asiático. A base
está prestes a ser desocupada pela Rússia, que já não pode pagar
o arrendamento.
A inclusão da Coreia do Norte na lista de alvos de Bush foi particularmente
difícil de entender, já que aquele país vem tentando desesperadamente
rastejar aos pés dos Estados Unidos nos últimos anos. Clinton diz
que esteve quase a viajar para aceitar a rendição no fim do seu
mandato, em Dezembro de 2000. De facto, há vários anos atrás que
a Coreia do Norte interrompeu unilateralmente os testes dos mísseis
de que Bush se queixa. Não é claro, no momento em que este artigo
é escrito, se Bush pretende ou não fazer lá uma guerra. Mas desde
os seus primeiros dias na administração que Bush tornou claro que
tem relutância em permitir que a Coreia do Norte se pacifique. Novamente,
há algum simbolismo político envolvido na dramatização da sua ruptura
com as políticas de Clinton. Mas o factor mais importante nesta
equação não é a Coreia do Norte mas os 37.000 militares dos EUA
estacionados na Coreia do Sul. A manutenção de uma situação militar
insegura na península é um componente importante da capacidade dos
EUA para intimidar a China, que Bush aparentemente espera puxar
mais firmemente para a órbita dos EUA, e o Japão, um país cuja exploração
da Coreia é central para a sua existência imperialista.
Outros países onde o exército dos EUA está agora presente, ou a
considerar o envolvimento, incluem a Colômbia, o Iémen, a Indonésia
(à qual podem ser enviados conselheiros norte-americanos), e mesmo
talvez a Argélia (os EUA começaram a fornecer, numa manobra de provocação
nas costas da França, equipamento militar ao governo da Argélia,
onde até agora os contactos dos EUA eram principalmente com os "terroristas"
fundamentalistas islâmicos). Junte-se tudo e ter-se-á um mapa de
onde os EUA consideraram por muito tempo que os seus interesses
políticos e económicos estratégicos requeriam intervenção militar
e um quadro mais claro da necessidade por trás da loucura de Bush.
6. Uma Guerra Mesmo a Calhar
As relações entre política e economia são complexas e dinâmicas.
Na situação mundial de hoje, tudo está enraizado na crescentemente
global "socialização total da produção" e na sua contradição com
a apropriação privada, como Lenine notou há quase um século, quando
chamou ao imperialismo a antecâmara de um sistema novo de cooperação
global que emergiria através da revolução proletária. As compulsões
económicas que arrastam os imperialistas (inclusive crises, rivalidades
e o imperativo de expandir-ou-morrer) estão enraizadas naquela contradição,
tal como o está a luta do proletariado internacional e seus aliados.
Essas classes dominantes são em última instância as representantes
das exigências do capital imperialista e não tomam simplesmente
obstinadas decisões políticas. Mas novas políticas têm sido de facto
iniciadas devido à interacção destas exigências e das políticas
imperialistas.
Há ampla evidência que a administração Bush entrou em funções à
procura de algo semelhante ao 11 de Setembro, uma oportunidade para
mudar o rumo militar, político e social que vinha sendo seguido
nos EUA. Numa entrevista saída no Washington Post de 29 de
Janeiro de 2002, Bush afirmou "creio que há lá fora uma imagem dos
Estados Unidos de que nós somos muito materialistas, que não temos
valores e que, quando atacados, não daríamos luta". No mesmo artigo,
Rumsfeld voltou a contar como quando Bush o entrevistou para o cargo
de Secretário de Defesa (o papel chave no gabinete Bush, como se
revelou), Bush criticou Clinton por seguir um padrão de "recuo reflexivo"
sempre que a intervenção militar norte-americana colidia com obstáculos
sérios, como a sua derrota às mãos das milícias locais na Somália.
Rumsfeld respondeu que acreditava que o poder dos EUA necessitava
de "disciplinar o mundo". "Eu não lhe deixei qualquer dúvida na
mente acerca disso, no momento em que algo acontecesse, eu estaria
com ele para ir em frente, não para recuar. E eu queria que ele
soubesse isso. Ele disse, sem ambiguidades, que era o que ele estava
a fazer, e que nós tínhamos um entendimento claro e comum." Foi
exactamente o que Bush fez, "inclinar-se para a frente" e saltar
à primeira boa oportunidade de guerra que se lhe apresentou. Para
os que tinham esse conhecimento, estas cartas já estavam na mesa
quando Bush foi escolhido para presidente.
O regime Taliban nasceu entre o esterco e o lodo do "grande jogo",
a cavalgada imperialista para o controlo dos oleodutos e dos gasodutos
da Ásia Central. Os EUA deram luz verde ao Paquistão em 1996 para
conduzir ao poder os Taliban porque acreditaram que eles pudessem
trazer a estabilidade política necessária para que a companhia Unocal
pudesse construir um oleoduto entre o Turquemenistão e o Paquistão
através do Afeganistão e tendo a certeza de que o petróleo que flui
das antigas repúblicas soviéticas ficaria sob o controlo norte-americano.
O apoio aos Taliban é comparável às relações militares próximas
que os EUA desenvolviam com a maioria daqueles países da Ásia Central.
A opressão medieval das mulheres não era certamente nenhum obstáculo,
especialmente porque que emparelhava com muito do programa defendido
pelos fundamentalistas cristãos norte-americanos respeitados nos
círculos de Bush. Além disso, o governo norte-americano considerou
os Taliban tão potencialmente úteis que o Departamento de Estado
bloqueou durante algum tempo a investigação do FBI acerca do envolvimento
de Osama bin Laden no bombardeamento do Cole USS no Iémen porque
esperava persuadir suavemente os Taliban a entregá-lo sem romperem
relações. (O responsável da investigação do FBI que se demitiu em
protesto, tornou-se responsável da segurança ao World Trade Center,
onde viria a morrer.) Há relatos de que as negociações entre os
EUA e os Taliban continuaram até Julho de 2001. O diário francês
Le Figaro garantiu que o responsável local da CIA se encontrou
ele próprio durante esse mês com bin Laden, enquanto este estava
a tratar-se num hospital norte-americano no Dubai21.
Estas negociações foram repentinamente interrompidas em Agosto
de 2001. Parece que os EUA tinham perdido o interesse nos Taliban
e já estavam em ânsias por uma guerra no Afeganistão. De uma maneira
ou de outra, conseguiram-na. Quem disparou o primeiro tiro? Não
importa. A invasão do Afeganistão pelos EUA, tal como o apoio aos
Taliban, teve como significado estabelecer um regime semi-feudal,
patriarcal e subserviente ao imperialismo. Mais, o Afeganistão era
só um alvo de oportunidade, um inimigo militar e políticamente fácil,
nada que se parecesse com os revolucionários vietnamitas que derrotaram
os EUA e ganharam apoio pelo mundo inteiro. O Afeganistão era importante,
não tanto por direito próprio, mas como um bom lugar para começar
uma violenta rapina global.
Como escreveu Lenine: "A guerra não altera a direcção da política
de pré-guerra mas acelera o seu desenvolvimento". O resultado do
11 de Setembro não alterou tendências históricas. Marcou, porém,
uma situação nova, qualitativamente diferente.
7. A "Frente Interna"
A "política de coligação" e a "política de recostar" com que Bush
acabou estavam muito ligadas à relutância dos EUA em pôr as suas
próprias tropas em combate directo, especialmente onde poderiam
ser mortos num número que seria politicamente difícil de sustentar
a nível doméstico. Só muito recentemente os imperialistas europeus
começaram a criticar os EUA por não enviarem soldados suficientes,
especialmente para lugares onde as tropas europeias estavam a ser
enviadas, como a ex-Jugoslávia onde foi dito: "Os EUA bombardeiam,
nós morremos e as ONG's alimentam". Hoje, mais do que antes, os
EUA contam ser capazes de poder infligir mortes de uma distância
segura. O que isto significa já foi demonstrado amplamente no Afeganistão
onde as estimativas de civis mortos varia entre 3000 a muitas vezes
esse número. Quando numa conferência de imprensa alguém se referiu
a um bombardeamento pelos EUA de um casamento numa aldeia e cujos
sobreviventes foram metralhados, Rumsfeld ensinou concisamente os
meios de comunicação a nem considerarem essas coisas como assunto.
Mas os norte-americanos vão ter de se preparar para os sacos dos
corpos, e Bush quer que o saibam. De facto, ainda que "a morte que
chove de cima" permaneça uma estratégia de base dos EUA, os imperialistas
dos EUA têm também a intenção de enterrar o "síndrome do Vietname"
(pelo qual designam o medo de ficarem presos numa guerra perdida
de conquista imperialista) e anular alguma da relutância que resta
em sacrificar o sangue das tropas para alcançar os seus objectivos.
Em última instância, o controlo político requer tropas no solo.
No esforço para atingir novas posições no estrangeiro, todos os
imperialistas estão ansiosos por não serem os únicos com tropas
sem cicatrizes de batalha.
A mudança de maré em política militar foi preparada em simultâneo
com alterações políticas dentro da sociedade norte-americana. Após
o 11 de Setembro, um largo espectro de representantes da classe
dominante dos EUA tem trabalhado para conseguir uma mudança de paradigma
de um contrato social com sectores das classes médias, nas quais
a aquiescência passiva foi considerada suficiente para atingir um
certo conforto, para um modelo mais espartano no qual a ordem do
dia é uma guerra sem fim e a vontade de aceitar a mobilização e
os sacrifícios que se tornam necessários.
Abanão atrás de abanão, a paisagem política norte-americana tremeu
durante os últimos anos, quando um novo programa começou a emergir
através da evolução dos acontecimentos, da luta política interna
e de uma alteração de consensos. Houve severas "guerras culturais"
em torno do aborto, da família patriarcal e de assuntos culturais
- questões sobre o modo de vida das pessoas - mas pouco foi dito
em público sobre tudo isso, excepção feita a obscuros artigos em
jornais de política externa. Quer acreditem no seu sistema ideológico
ou apenas acreditem pragmaticamente que ele resulta numa propaganda
eficiente, os círculos da classe dominante que rodeiam Bush têm
um completo programa social e cultural altamente repressivo. Procuram
criar uma situação social que é tão radicalmente diferente a nível
interno como o império global sem limitações que tentam criar. Sem
fazer comparações fáceis que a história pode ou não confirmar, ou
ignorando as diferenças profundas entre uma Alemanha que faz uma
jogada desesperada para fugir do seu estatuto de potência derrotada
e uns Estados Unidos no cume do monte imperialista e determinados
a aí permanecer, pode dizer-se que as reformas da sociedade levadas
a cabo pelos nazis estavam a par com os objectivos globais do imperialismo
alemão e com o que eles sabiam ser necessário para os alcançar.
8. Perigos e Oportunidades
Depois da Primeira Guerra Mundial, Estaline escreveu: "O significado
da guerra imperialista que começou há dez anos atrás baseia-se,
entre outras coisas, no facto que juntou todas estas contradições
num único nó e atirou-as para o prato da balança, deste modo acelerando
e facilitando as batalhas revolucionárias do proletariado". A situação
é agora diferente em muitas maneiras - hoje as contradições entre
os imperialistas são condicionadas principalmente pela contradição
entre o imperialismo e os povos oprimidos - mas, não obstante, a
analogia é útil, porque as contradições do mundo estão entrelaçadas,
o nó está cada vez mais apertado, e estão a ser atirados novamente
"para o prato da balança". Estão a desenrolar-se acontecimentos
cataclísmicos e os imperialistas e reaccionários colocaram a guerra,
a resolução das contradições pela força das armas, exactamente no
centro do palco. Tudo isto pode servir para acelerar e facilitar
as batalhas do proletariado e dos povos oprimidos no começo do século
XXI.
Para que isto aconteça, para fazer crescer e concretizar o potencial
favorável na situação mundial de hoje, muito trabalho é necessário
para levantar mais poderosamente a bandeira do proletariado no actual
remoinho de contradições. Nunca antes na existência do Movimento
Revolucionário Internacionalista se revelaram tão nitidamente as
necessidades e as possibilidades de uma liderança maoista.
É indiscutível - mesmo George Bush o compreende - que haverá resistência.
Pode surgir de modos diferentes e a um ritmo diferente em países
diferentes, e não seguirá uma linha recta. Mas, para os maoistas,
a questão mais importante é esta: devemos estar no seu caminho como
observadores (tentando desviar a atenção para outro lado, esperando
algumas condições diferentes)? Seguir atrás das correntes contraditórias
e por vezes sem saída que espontaneamente aparecem? Ou esforçarmo-nos
por dirigir essa resistência? Quem mais poderá unir correctamente
todas as meadas da luta, descobrir os interesses comuns dos povos
e apontar o seu inimigo comum, e mostrar o que precisa de ser feito
em cada fase?
Lenine escreveu: "A experiência desta guerra (...) aturde e quebra
algumas pessoas mas ilumina e tempera outras". Mostrou que a guerra
revela o que normalmente está escondido, que, em última instância,
o sistema imperialista depende da força militar para sobreviver
e que a guerra cria condições mais favoráveis para o proletariado
e os povos estabelecerem as suas próprias regras através da revolução.
Esta nova desordem mundial será temida por alguns e bem-vinda para
outros, mas custe o que custar prevalecerá e arrebatará milhões
no seu movimento, arrastando consigo os seus próprios pontos de
vista e interesses. Idênticos acontecimentos esclareceram as verdadeiras
relações que governam este mundo e as forças e fraquezas dos povos
e dos seus inimigos, mobilizando e temperando o povo para os combater.
O que as palavras de Lenine significam agora, na actual situação,
é que enfrentamos quer o perigo de ser esmagados, por confrontação
com um inimigo que luta agressivamente ou devido à nossa própria
passividade ou a passos em falso, quer a necessidade e possibilidade
de nos erguermos no momento exacto e conduzir a luta numa escala
planetária, de um modo que não era possível quando os povos do mundo
não tinham enfrentado um inimigo tão nitidamente definido e desenfreado.
A resistência global e uma afirmação mais forte da alternativa
proletária são o que se exige. Essa resistência terá muitas formas.
Por um lado, a sua necessidade de constituir movimentos de massas
a nível internacional, unindo tudo o que possa ser unido, trazendo
a perspectiva e o programa de luta do proletariado para estas batalhas
e, por este processo, ganhando amplas massas no mundo inteiro, não
só para mais poderosa e efectivamente se oporem e resistirem à guerra
e à agressão dos imperialistas, mas também para compreenderem e
realçarem mais nitidamente o próprio sistema imperialista como a
causa da injustiça e opressão no mundo inteiro.
Ao mesmo tempo, e passo fundamental para a capacidade dos maoistas
se introduzirem mais vigorosamente na cena política à escala mundial,
a actual situação internacional também torna possível e necessária
uma adicional aceleração do trabalho na via da tomada do poder em
todos os países e da construção e fortalecimento de partidos maoistas
capazes de liderar esse processo. De facto, as condições para o
realizar podem ser vislumbradas no horizonte em vários graus em
diferentes países.
Por exemplo, podemos ver hoje como a Guerra Popular no Nepal está
a interagir com o rápido avivamento da situação revolucionária em
toda a região. O ressoar das vitórias da Guerra Popular está a fornecer
um modelo de como lutar e para quê. O medo de que um tal caminho
alternativo apareça na zona explosiva do sul da Ásia é sem sombra
de dúvida uma das razões pelas quais a revolução no Nepal está a
enfrentar a mais directa oposição dos imperialistas norte-americanos
e britânicos, bem como do polícia regional do sistema imperialista
mundial, a Índia. É também claro que as rivalidades entre os diferentes
estados reaccionários, especialmente a Índia e o Paquistão, bem
como o tumulto e a resistência desencadeados pela denominada "guerra
ao terrorismo", criam igualmente mais condições favoráveis para
a revolução ao longo do sub-continente.
Do mesmo modo, noutros estados da linha da frente, o processo revolucionário
é agora muito mais directamente condicionado pela cruzada conduzida
pelos EUA. No Irão, a oposição fingida do regime ao imperialismo
poderá ser proximamente testada, clarificando as mentes e fornecendo
aberturas revolucionárias. A solidez do regime reaccionário da Turquia
é objecto de crescente preocupação para os EUA, no meio das pressões
políticas e económicas para o fazer alinhar no esforço de guerra
dos EUA - um projecto altamente arriscado22. Para citar
outro exemplo-chave para os planos dos EUA, apesar do esforço israelita
para "espancar os Palestinos até à submissão", como afirmou Sharon,
a ocupação israelita da Palestina de modo nenhum se tornou mais
estável neste contexto mundial, mas ao invés continua a gerar resistência
e a espalhar instabilidade por toda a região. O regresso das tropas
dos EUA às Filipinas já desencadeou um tumulto anti-imperialista
por todo o país e pode oferecer oportunidades para um novo nível
de mobilização e de unidade do povo pela luta armada.
Os efeitos exactos em cada um dos países oprimidos serão desiguais
e difíceis de predizer. Em geral, pode ser que as paradas mais altas
jogadas por Bush venham a ter consequências contraditórias. As guerras
populares são necessariamente demoradas e passam por avanços e recuos.
Mas da mesma maneira que é impossível ao domínio reaccionário prevalecer
uniformemente ao longo de um único país na maioria dos países oprimidos
pelo imperialismo, devido à fraqueza relativa do poder central estatal
nas nações oprimidas, particularmente nas vastas zonas rurais, também
é impossível para os imperialistas dos EUA intervir em todos os
lugares à volta do mundo e ao mesmo tempo, e terão de fazer face
eles próprios a algumas duras escolhas.
As forças dos EUA estão agora estacionadas em pelo menos 100 dos
189 estados membros das Nações Unidas - a sua maior presença por
todo o mundo desde a Segunda Guerra Mundial. Muitas delas estão
a operar em áreas como a Ásia Central, que lhes são relativamente
pouco familiares, e longe da casa-mãe norte-americana, com reforços
dependentes de bases intermédias posicionadas em países "amigos"
terceiros como a Arábia Saudita, que nem sempre são estáveis. Por
muito "ligeiras" que possam ser, a sua distribuição está a ser muito
esticada, mesmo em relação à força económica dos EUA. Os dirigentes
dos EUA estão a jogar com a eventualidade de poderem traduzir a
sua presença militar alargada em lucros económicos. Mas essa situação
deixa as suas forças expostas e vulneráveis numa escala sem precedentes.
Ainda que os EUA tenham tido êxitos razoáveis na fase inicial da
"cruzada", conseguindo fazer alinhar as outras potências imperialistas,
os interesses divergentes das diferentes potências significam que
não poderão manter-se indefinidamente num campo unificado - a contenda
e a conspiração são uma característica permanente do imperialismo.
As fissuras na "coligação" dirigida pelos EUA já estão a evidenciar-se
em relação ao Iraque e à Palestina e crescerão mais profundamente
com a intensificação da resistência dos povos.
Quando Rumsfeld definiu a nova doutrina militar dos EUA como a
capacidade para lutar ao mesmo tempo em quatro teatros principais
de guerra - e amplamente sós - supunha que ninguém lhe ripostaria
com dureza e que os EUA continuariam a obter vitórias fáceis. Afinal
de contas, a guerra no Vietname tinha sido só uma guerra e mesmo
assim os EUA não conseguiram ganhá-la. Esta situação coloca também
desafios sem precedentes para as forças revolucionárias, incluindo
em termos da elevação do nível de unidade internacionalista para
empreender a luta global contra os imperialistas de um modo mais
unificado.
Tal como para a situação nos países imperialistas, há também experiências
históricas para utilizar aqui. "Nunca o imperialismo é mais forte
que no início de uma guerra", escreveu Lenine em 1915 numa polémica
contra aqueles que viam só esse aspecto da situação e não as situações
revolucionárias que seriam desencadeadas com o passar do tempo como
consequência da guerra desencadeada nos países beligerantes. Mais
tarde acrescentou: "Em primeiro lugar, nunca os governos chegam
a uma tal necessidade de acordo com todos os partidos das classes
dominantes, ou a uma tão grande submissão "pacífica" das classes
oprimidas em relação a esse arranjo, como no tempo de guerra. Em
segundo lugar, embora 'no início de uma guerra', e especialmente
num país que espera uma rápida vitória, o governo pareça todo-poderoso,
nunca ninguém fez depender as expectativas de uma situação revolucionária
exclusivamente com o 'início' de uma guerra, e muito menos identificou
as 'parecenças' com a realidade."
Nenhuma situação revolucionária existe agora nas áreas imperialistas
centrais, mas as situações revolucionárias são impossíveis sem crises
geradas por eventos como a actual guerra, e certamente ninguém pode
dizer se isto ou alguma crise futura darão lugar a tal situação.
Nunca houve uma guerra imperialista que não fosse saudada no princípio
por uma onda de patriotismo. Numa análise mais aproximada, até mesmo
entre as camadas intermédias nos EUA e noutros países imperialistas
os sentimentos são mais complicados do que possa parecer no princípio.
Além disso, a situação entre os países imperialistas é necessariamente
desigual, mas a avidez da corrida para construir armas, militarizar
as sociedades e conseguir tropas no terreno para combater pelo controlo
e saque onde quer que seja possível, arrastará todos estes países
no turbilhão. A posição dos EUA como país da linha da frente levará
as pessoas para a vida política de uma maneira intensificada, e
as lutas contra a cruzada dos EUA terão um enorme impacto no resto
do mundo, da mesma forma que as lutas noutros países darão alento
aos que se encontram no ventre da besta.
A luta contra a guerra e a agressão conduzidas pelos EUA contra
os povos do mundo terá um impacto crucial no desenvolvimento da
revolução mundial. Marx falou da necessidade de a classe trabalhadora
resistir aos capitalistas ou arriscar-se a ficar reduzida a uma
massa dominada miserável; o mesmo se aplica à resistência contra
as guerras injustas de hoje. Além disso, os imigrantes do Médio-Oriente
nos Estados Unidos já estão a viver sob lei marcial. A Inglaterra
prendeu candidatos a asilo em condições de campo de concentração.
A exigência proposta de os fazer transportar "cartões inteligentes"
com microchip, cujos conteúdos são secretos mesmo para os
homens e mulheres que os usam, foi comparada à estrela amarela que
os judeus foram obrigados a usar pelos nazis23. As guerras
coloniais antigas e recentes são acompanhadas inevitavelmente por
repressão contra os que foram forçados a deixar as suas pátrias
para trabalhar nas metrópoles onde constituem um componente básico
do proletariado, em muitos países imperialistas. Viu-se nos massacres
de manifestantes argelinos em Paris durante a guerra da França contra
a Argélia. Só se o proletariado avançado e os maoistas que o representam
nesses países se levantarem em solidariedade com os povos do mundo,
poderão tornar-se capazes de dirigir; só desse modo poderão representar
os interesses e começar a unir os trabalhadores e a maioria do povo
dessas sociedades, cujos interesses fundamentais são opostos ao
tipo de mundo em que são obrigados a viver.
Mais, este é o contexto favorável aos esforços organizativos necessários
para ir do que Lenine descreveu como a situação dos revolucionários
que usam "sapatos de solas finas" para uma outra onde são necessárias
"botas cardadas". Seria um erro de vergonhosas e talvez fatais proporções
não reconhecer a existência e as implicações da nova situação.
Há um perigo considerável de perda da atitude revolucionária em
face desta situação. Já houve alguma experiência no movimento anti-globalização,
cujo aparecimento no período que antecedeu o 11 de Setembro tanto
alarmou os imperialistas de todos os países e provocou muita da
repressão no pós-11 de Setembro. (Os tiroteios policiais contra
manifestantes anti-globalização em Gotemburgo e Génova anunciaram
a mudança nas regras do jogo na política do Ocidente.) Algumas forças
tentaram desligar as exigências contra a globalização das actuais
guerras e das preparações para as guerras. A pergunta que se coloca
às pessoas desses movimentos, como a toda a gente no mundo, é se
devem ou não erguer-se ao lado dos povos do mundo. Caso contrário,
os justos e importantes protestos contra os McDonald e os produtos
geneticamente modificados, ou até mesmo a repressão política, correm
o risco de se perder . Por exemplo, quase não houve uma oposição
suficientemente forte à guerra conduzida pelos EUA na conferência
anti-globalização em Porto Alegre, no Brasil. Os membros e partidários
dos governos europeus cúmplices (especialmente da França) foram
autorizados a participar como se não fossem parte do problema. Este
era um estudo de caso sobre como reduzir a exigência de um mundo
diferente a um desejo irrelevante e piedoso, ignorando o que impede
esse mundo de nascer - o imperialismo e as suas forças armadas e
os seus reforços. Para dar um outro exemplo, erguer slogans contra
a guerra e o terrorismo significa evitar apontar a ponta da lança
da luta contra os EUA e as suas classes dominantes e só pode estrangular
no berço a resistência dos povos. Os que entendem a possibilidade
e necessidade de unir muito amplamente, de se basearem nas massas
e unir todos os que podem ser unidos contra a cruzada dirigida pelos
EUA e a guerra imperialista em todas suas manifestações, poderão
inspirar e conduzir o duro trabalho de derramar luz sobre a situação
mundial e contar às massas a verdade acerca de onde repousam os
seus interesses - não com os imperialistas e seus governos, mas
com os povos do mundo.
Como o Movimento Revolucionário Internacionalista recentemente
escreveu: "O mundo entrou num período de mudança distinta quando
o que à superfície parecia permanente e imóvel foi abalado pelas
suas contradições internas. É um tempo simultaneamente repleto das
maiores oportunidades e de verdadeiros perigos. Exigirá tudo da
nossa determinação proletária, da nossa posição, ponto de vista
e método marxistas-leninistas-maoistas, e também da nossa orientação
política correcta para avançar entre a turbulência da tempestade.
Podemos ver agora mais nitidamente a possibilidade da vitória definitiva,
mas tal exigirá mais luta e mais sacrifício."
Mao Tsetung disse que o imperialismo é um tigre verdadeiro e um
tigre de papel, e no fim de contas é o povo e só o povo que é realmente
poderoso. No mundo de hoje, quem tentar ignorar o aspecto verdadeiro
do tigre está a propagar uma falácia suicida. Mas por que será ele
também um tigre de papel? Este aspecto pode permanecer oculto em
tempo normal e mostrar-se só em todas as suas formas através da
luta das massas. Não porque os arranha-céus do imperialismo possam
cair ao chão, mas porque provoca desgraça em casa e em todo o mundo,
despertando o ódio dos povos e unindo-os contra si, e no fim de
contas os povos e só os povos, mesmo no ventre da besta, podem resolver
as contradições a que dá lugar. O mundo está cada vez mais a mergulhar
em desastres que só podem ser solucionados pelos povos, mobilizados
na luta revolucionária e conduzidos por uma linha marxista-leninista-maoista.
Notas
1 O incêndio do Reichstag (Parlamento) alemão em 1933 foi o pretexto
para Hitler declarar "Ou estão connosco ou contra nós" no seu estilo
próprio e iria servir para reforçar as leis nazis como um prelúdio
para uma guerra pela hegemonia mundial.
2 No mundo real, estas condições económicas neutras significam
caos e sofrimento numa escala raramente vista na história humana.
Por exemplo, o "funcionamento normal" do comércio mundial significou
que a agricultura da Zâmbia foi arruinada e a sua economia ficou
dependente das minas na posse de estrangeiros, e esse mesmo funcionamento
normal significou que quando o punhado de monopólios em competição
produziu demasiado cobre nos vários países do Terceiro-Mundo que
controlavam, as minas da Zâmbia foram fechadas e o capital limitou-se
a recolher e a deslocar-se para outro lugar. O Fundo Monetário Internacional
(FMI) resolveu o problema da falta de oportunidades de lucro para
o capital imperialista na Zâmbia abrindo a sua economia a outros
modos de penetração adicionais. Forçou o país a derrubar as barreiras
de comércio que protegiam as suas fábricas de artigos de vestuário
quando elas prosperavam, e onde trabalhavam as mulheres, as mães
e as crianças dos mineiros. As roupas importadas logo os invadiram,
como uma vaga gigantesca. Um das muitas mulheres que tentam manter
as suas crianças vivas vendendo alguns tomates num mercado local
disse a um repórter: "Nunca ninguém vivo viu alguma vez tal pobreza".
Após a crise financeira causada pelos movimentos do sistema monetário
global, em poucas semanas os camponeses da Indonésia deixaram de
comer arroz e passaram a raspar as árvores. O mundo viu escassez,
pragas e outros desastres, mas nunca eles foram tão claramente artificiais.
3 Os dois blocos políticos estavam unidos por interesses mútuos,
não pela força, mas não foram permitidas deserções em qualquer das
partes. Os soviéticos demonstraram-no na Checoslováquia em 1968.
Também assim fizeram os EUA, embora às vezes menos abertamente.
Em Itália, por exemplo, sob o Projecto Gládio e organizações secretas
como a Loja Maçónica P2, os EUA organizaram-se para lançar um súbito
golpe militar em cooperação com sectores conotados com a classe
dominante italiana se o Partido Comunista Italiano, pró-soviético,
estivesse próximo do poder.
4 Há uma gravação do Secretário de Estado de Nixon, Henry Kissinger,
em que diz: "Nós não podemos deixar um país tornar-se marxista só
porque o seu povo é irresponsável". Foi ele que dirigiu a CIA para
organizar um golpe militar para derrubar Allende. Os generais, apoiados
pelos EUA, executaram milhares de suspeitos de serem um obstáculo
para os interesses dos EUA, criando assim condições políticas para
o investimento posterior dos EUA.
5 A Argentina é um bom exemplo. O capital europeu e especialmente
o espanhol estava tão concentrado naquele país e nos seus vizinhos
que quando o FMI recusou prolongar os empréstimos da Argentina,
o mercado de valores espanhol tremeu, enquanto o mercado dos EUA
assim pôde proceder sem dificuldade. A França e a Espanha tinham
tentado evitar esta decisão, mas sob o sistema de voto do FMI, os
EUA têm poder de veto. Tanto pior para os bancos espanhóis. E tanto
pior para os milhões de argentinos que acordaram uma manhã e se
acharam pobres ou mais pobres quando se desmoronou o sistema monetário
do país.
6 Para mais informação, ver "Comércio Livre - Máquina de Crescimento
ou Pilhagem?", em AWTW 2000/26.
7 Agora já deveria ser claro para todos que o argumento de que
os "direitos humanos" diluem a soberania se transformou numa nova
doutrina: a da "segurança nacional" (dos EUA, claro) triunfa sobre
os direitos humanos, agora entendidos apenas como "uma causa em
moda nos obscuros e distantes anos noventa", como cinicamente escreveu
um colunista.
8 Vemos hoje em julgamento, no Tribunal Mundial em Haia, Milosevic,
o bandido sérvio protegido pela Rússia e parte da classe dominante
francesa, enquanto o bandido croata Tudjman, protegido pela Alemanha
e pelos EUA, ainda está no poder.
9 Concretizaram finalmente o seu desejo na feroz batalha a sul
de Gardez em Março, a primeira na guerra do Afeganistão que os EUA
travaram com forças convencionais. Participaram tropas da Austrália,
do Canadá, da Dinamarca, da França, da Alemanha e da Noruega, com
a França a partilhar as tarefas de bombardeamento aéreo. Durante
alguns dias, os ministros dos estrangeiros da Europa continental
suavizaram o seu tom.
10 A URSS produziu equipamento militar, desde as espingardas automáticas
Kalashnikov aos jactos MiG e aos maiores aviões militares do mundo,
que foram consideradas de qualidade pelo menos igual à do Ocidente.
Mas, ao câmbio actual, o orçamento militar anual da Rússia desceu
agora para 9 biliões de dólares. Em comparação, de acordo com algumas
estimativas, os EUA estão a gastar agora aproximadamente 1 bilião
de dólares por dia. Já se disse que o custo da manutenção da paridade
militar com o Ocidente, atendendo à menor base económica do Bloco
de Leste, criou desequilíbrios económicos que constituíram um importante
factor na sua derrocada. Pode haver lições a tirar pelos EUA em
termos dos seus planos para aumentar largamente os gastos militares.
A alteração do equilíbrio mundial de forças militares, devida a
um maior enfraquecimento da Rússia, também impediu os sonhos de
enxertar o poder militar russo no poder económico europeu. Esta
é outra importante diferença entre a situação mundial de há uma
década atrás e a de hoje.
11 Nos últimos anos, a França desenvolveu uma força de reacção
rápida de 50.000 soldados, integrados num realinhamento estratégico
das forças armadas de França, iniciado em 1996, e que se distancia
do enfoque da sua dependência nuclear dos tempos da Guerra Fria.
Abandonou os seus mísseis nucleares terrestes e os bombardeiros
e, ao abolir o recrutamento militar, tornou politicamente mais fácil
o envio de tropas para além-mar. Até recentemente, a Alemanha só
dispunha de 1000 soldados especificamente treinados e equipados
para uma intervenção rápida no estrangeiro. O Reino Unido tem 4000
tropas de operações especiais experimentadas, o SAS, com um currículo
infame de atrocidades na Irlanda e noutros lugares, enquanto que,
em contraste, as unidades alemãs similares combateram pela primeira
vez no Kosovo. Os três países fizeram esforços para enviar esses
soldados para combate onde quer que fosse e sempre que possível,
não só para alcançar metas militares e políticas imediatas, mas
também para os testar e treinar como unidades centrais de uma futura
expansão.
12 As armas nucleares da Índia e do Paquistão podem ser ignoradas
no que diz respeito à cena militar mundial. As armas nucleares de
Israel têm um papel específico, o de garantir o posto avançado do
sionismo sustentado pelos EUA no Médio-Oriente.
13 Este poderá ser o modelo que os EUA querem implementar para
alguns ou para todos os outros países imperialistas, aparentado
ao do Império romano no seio do qual as classes dominantes locais
se articulavam, para seu benefício mútuo, desde que todas as estradas
conduzissem a Roma, e a Roma coubesse a parte do leão e a última
palavra.
14 Ver Philip S. Golub,"O Governo da Guerra Fria sem Guerra para
Lutar - Os Desejos Imperiais da América", Le Monde Diplomatique
(edição inglesa), de Julho de 2001. Tome-se nota do cabeçalho -
esta análise da procura pelos Estados Unidos de um poder unipolar
foi publicada antes do 11 de Setembro. Golub faz notar que mesmo
antes de Rumsfeld se ter tornado o secretário da guerra de Bush,
já advertia que se aproximava um novo "Pearl Harbour". Pode ser
mais preciso dizer-se que Rumsfeld estava a pedi-lo. Claro que isto
é aquilo a que os Bushitas chamam os acontecimentos de 11 de Setembro.
O Pearl Harbour original, o ataque japonês à frota norte-americana
estacionada no Havai que conduziu à entrada dos EUA na Segunda Guerra
Mundial, foi também um acontecimento muito bem-vindo pelos EUA,
se não mesmo provocado ou deliberadamente permitido.
15 Pouco depois, Powell acusou o seu congénere francês, Hubert
Vedrine, de ter "ficado com afrontamentos", uma observação que outros
"porta-vozes não identificados" dos EUA traduziram como idêntica
a actuar como uma "mulher na menopausa". Estas observações do principal
diplomata (!) de Bush, são os termos em que os Estados Unidos estão
a colocar o debate: "verdadeiros homens" versus fêmeas e
afeminados. Para o macho - misógino e homofóbico - homem do exército
norte-americano, esta é uma provocação.
16 Os EUA anunciaram recentemente que desenvolveriam dispositivos
nucleares "tácticos" menores que seriam usados em guerras "normais".
De facto, o Afeganistão e o Iraque foram referidos como objectivos
potenciais. Os estrategas de guerra costumavam referir-se ao "equilíbrio
do terror", que significava que nenhuma das partes ousaria provocar
uma decisiva confrontação termonuclear. Agora, no "valente" mundo
novo do pós Guerra Fria poderemos ver - e cedo - a primeira guerra
nuclear desde Hiroshima.
17 Bush nem se incomodar a formular pretextos credíveis. A própria
CIA (de súbito à "esquerda" na política norte-americana) emitiu
um relatório em Fevereiro que declara que o Iraque, tal como o Irão
e a Coreia do Norte (os três países da lista do "eixo de mal" para
Bush), não estão neste momento envolvidos no que os EUA consideram
"terrorismo". Bush não tentou provar o contrário. Ao invés, enfatiza
as armas que o regime poderia adquirir em algum momento futuro,
as quais, mesmo que existissem, ainda empalideceriam ao lado das
armas químicas, bacteriológicas, nucleares e outras "armas de destruição
massiva" já nas mãos dos EUA, Israel, etc. (afinal de contas, o
antraz que matava as pessoas pelo correio nos EUA foi fabricado
com propósitos igualmente assassinos pelo governo norte-americano).
18 A juntar-se ao já discutido fim da "política de coligação" entre
os EUA e a Europa, há uma década atrás a URSS era a principal defensora
do Iraque; recentemente a Rússia recusou receber a visita de um
ministro iraquiano.
19 Dificilmente se trata de uma novidade para um regime que forneceu
armas aos Contra da Nicarágua, patrocinados pelos EUA no início
dos anos oitenta.
20 Os EUA conseguiram Cuba e Porto Rico da mesma forma, durante
a sua guerra com a Espanha em 1898.
21 Contrariamente ao seu padrão e à sua quase invariável prática
de recusar confirmar ou negar alegações sobre a sua actividade,
a CIA denunciou-o depois como uma maquinação.
22 Esta é a razão pela qual o FMI financiou a Turquia e não a Argentina.
23 Num país que se orgulha de os seus cidadãos não terem qualquer
cartão de identidade nacional. |