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Guerra
Popular no Nepal
Avanços Surpreendentes
Artigo extraído do número 28 (2002) da revista Un Mundo
que Ganar (UMQG), uma revista
inspirada pela formação do Movimento Revolucionário Internacionalista
(MRI).
No momento em que terminamos a nossa revista, em princípios de
Abril de 2002, a Guerra Popular no Nepal tem vindo a enfrentar um
difícil teste de vitalidade face ao regime reaccionário e ao seu
Exército Real do Nepal. De ambos os lados aumentou dramaticamente
o nível de combate, com o poder popular recém-criado a lutar para
nascer, enquanto os guardiães da velha e decrépita ordem feudal
e pró-imperialista estão a empreender um esforço cada vez mais desesperado
e feroz para apagar as chamas da revolução e as aspirações das massas.
Como se indicou numa edição anterior da UMQG, a Revolução
no Nepal já tinha vindo a desenvolver-se a um ritmo vertiginoso
no ano 2001. Ataques cada vez maiores e de mais alta qualidade pelas
forças armadas populares contra as autoridades do velho estado resultaram
em algumas importantes derrotas para o inimigo, com um grande número
de mortos e feridos e importantes quantidades de armas e munições
capturadas. Desde o seu início nos princípios de 1996, quando começaram
só com algumas espingandas antiquadas, as forças armadas revolucionárias
do Nepal evoluiram para um poderoso Exército Popular de Libertação
(EPL), capaz de levar a cabo não só ataques de guerrilha mas também,
e crescentemente, grandes ataques que envolvem centenas de combatentes
equipados com armas modernas capturadas ao inimigo.
Os avanços na Guerra Popular ocorreram ao mesmo tempo que dramáticas
mudanças na paisagem política do Nepal. As estruturas dominantes,
cada vez mais derrotadas pelas forças da revolução, mostraram-se
crescentemente incapazes de servir os interesses das reaccionárias
classes dominantes. Ao mesmo tempo que todos os reaccionários se
conluiavam numa firme unidade para se protegerem de um povo cada
vez mais desperto, a sua natureza de classe e o seu medo de um previsível
desastre, conduziram a conflitos agudos, amargos e às vezes mortais,
dentro das fileiras dos exploradores e dos seus homens de mão.
Os acontecimentos deram uma volta particularmente abrupta após
o massacre no Palácio Real em Maio de 2001, quando o Rei Birenda
e a maioria da sua família foi assassinada. Coincidindo com as sonantes
vitórias das forças armadas sob a direcção do Partido Comunista
do Nepal (Maoista) [PCN(M)] ocorridas em Abril e Maio, antes do
massacre no Palácio, e em Junho e Julho, a seguir a ele, no final
de Julho de 2001 foi nomeado um novo primeiro-ministro, que declarou
um cessar-fogo e abriu negociações com o PCN(M). O cessar-fogo durou
quatro meses, e foi uma espécie de trégua armada durante a qual
ambos os lados se prepararam para o inevitável reinício das hostilidades.
Do lado dos reaccionários, o inimigo de classe usou o período do
cessar-fogo para reagrupar as suas muito desorganizadas e desmoralizadas
forças, devido às derrotas na Guerra Popular e ao desmoronar da
monarquia que sempre fora o suporte do sistema feudal do Nepal.
Em particular, era necessário tentar estabelecer a autoridade do
novo Rei Gyrendra sobre o Exército Real do Nepal, o pilar do aparelho
de Estado.
O cessar-fogo correspondeu aos desejos de largos sectores do povo
do Nepal, especialmente nas cidades e nas classes média e alta,
que esperavam que uma solução pacífica pudésse ser encontrada para
os problemas do país. Ambos os lados do conflito se esforçaram por
atrair esses sectores do povo. O PCN(M) também fez uso do período
de cessar-fogo para consolidar o processo de formação de um governo
popular de âmbito nacional e para reforçar a organização do Exército
Popular de Libertação.
Foram mantidas três rondas de negociações. Os maoistas, como o
PCN(M) é popularmente conhecido, pediu o estabelecimento de uma
assembleia constituinte, a formação de um governo interino e a abolição
da monarquia. No decurso das negociações, o PCN(M) retirou a sua
exigência de abolição imediata da monarquia, declarando que esse
assunto poderia ser deixado para a assembleia constituinte.
Enquanto decorriam as negociações, aconteceu o 11 de Setembro.
Esse importante desenvolvimento mostrou claramente que os acontecimentos
no Nepal, incluindo o desenvolvimento da luta pelo poder de estado,
não acontecem no vazio. As negociações no Nepal estavam a ser seguidas
de perto pelos vizinhos reaccionários do Nepal (a China e, sobretudo,
a Índia). Durante vários meses, ao mesmo tempo que nos serviços
noticiosos imperialistas os mapas do teatro de guerra do Afeganistão
mostravam claramente o Nepal, os seus comentaristas mantinham-se
estranhamente calados, apesar do drama que que se desenrolava no
país. Os EUA e a Inglaterra eram comedidos nos seus comentários
e diziam basicamente que o PCN(M) e a revolução no Nepal seriam
ou não considerados "terroristas", dependendo do resultado das negociações.
Por outras palavras, davam uma no cravo e outra na ferradura.
Ao mesmo tempo, a classe dominante reaccionária do Nepal, como
muitos dos seus sósias encarregues da repressão dos respectivos
povos noutros países do Terceiro Mundo, sentiu-se incentivada pela
chamada "guerra ao terrorismo" e esperançada que no novo clima internacional
pudésse contar com as armas e o dinheiro dos imperialistas dos EUA
para eliminar as forças revolucionárias. As exigências do PCN(M),
representando as aspirações sentidas pela grande maioria do povo
do país, foram ignoradas e a classe dominante exigiu o que constituiria
essencialmente uma miserável rendição - o reconhecimento das instituições
reaccionárias do Nepal, como a monarquia, o exército e o parlamento.
Entretanto, o Exército Real do Nepal continuava a apressar os seus
preparativos para uma agressão total à revolução, preparando uma
nova força paramilitar apontada apenas aos maoistas e aterrorizando
os estudantes revolucionários na capital, Catmandu.
A ruptura das negociações ocorreu a 23 de Novembro com um anúncio
feito pelo Presidente Prachanda do PCN(M). Dois dias mais tarde,
grandes ataques tiveram lugar em doze distritos em todo o Nepal.
O PCN(M) atacou em força especialmente no vale de Dang e na sua
importante capital distrital, Ghorai. Todos os edifícios administrativos
distritais foram tomados, incluindo a sede da polícia e a prisão
local. Mais de quarenta e cinco agentes de segurança foram mortos,
incluindo vários soldados do Exército Real do Nepal, e muitos mais
foram feridos ou levados como prisioneiros. A imprensa informou
que foram capturadas centenas de armas, incluindo espingardas automáticas
e metralhadoras. Em Kalidamara, uma patrulha com 46 paramilitares
da recém-criada Unidade Armada das Forças Policiais foi emboscada
e 44 dos seus elementos foram declarados desaparecidos. De acordo
com a edição de Janeiro de 2002 do People's March, um diário
revolucionário da Índia, "durante quatro dias após os ataques de
sexta-feira, ocorreram batalhas por todo o Nepal".
Os ataques militares, uma ponta aguçada da ofensiva popular, foram
acompanhados de importantes iniciativas políticas. Um governo popular
central de 37 membros foi criado, representando um grande número
de distritos, de minorias nacionais e de tendências políticas no
Nepal. O novo governo é chamado Conselho Popular de Unidade Revolucionária
e é liderado pelo Camarada Baburam Bhatterai, um alto dirigente
do PCN(M).
A resposta do inimigo de classe foi rápida. A 26 de Novembro, o
Rei Gyrendra declarou o estado de emergência em todo o país. O governo
baniu como "terrorista" o PCN(M) e todas as organizações a ele associadas.
A declaração de emergência "suspendeu todos os direitos constitucionais,
incluindo as liberdades de expressão, de reunião, de movimentos,
de imprensa e de publicação, os direitos à informação, de propriedade,
de privacidade e de protecção constitucional" (People's March)
e concedeu ao governo o direito de prisão preventiva. A acompanhar
tudo isto estiveram os típicos esforços dos reaccionários para fabricar
divisões no Partido, rotulando primeiro uns e depois outros líderes
de "duros" ou "moderados". Tal como outros esforços anteriores deste
tipo, essas mentiras foram estilhaçadas pela sólida unidade e determinação
do Partido e da sua liderança.
Os escritórios do Jandisha e do Janadesh, dois jornais
que apoiam as posições do PCN(M), foram invadidos e todo o pessoal
presente foi preso. Também foram levados em custódia outros jornalistas
de diários de esquerda. Uma edição do maior diário em língua inglesa
do Nepal, o Kathmandu Post, foi proibida por conter imagens
de maoistas. Jornalistas de muitas tendências políticas protestaram
as prisões arbitrárias feitas pelo governo (um jornalista claramente
contra a Guerra Popular protestou que, até finais de Março, já tinham
sido presos 75 jornalistas apenas por exercerem a sua profissão).
Foi ordenado ao Exército Real do Nepal (ERN) que levasse a cabo
uma ofensiva de âmbito nacional contra os maoistas. De acordo com
os relatos do PCN(M), essas operações tiveram lugar usando os métodos
tipicos dos exércitos reaccionários do passado e do presente, atacando
feroz, mas cegamente, e vingando-se em pessoas comuns através de
assassinatos, violações, roubos e tortura. Embora alguns combatentes
maoistas tenham sido martirizados, foram principalmente os camponeses
que estiveram sob a mira da fúria do inimigo.
As novas leis tornaram o parlamento cada vez mais irrelevante e
exposeram-no como um "lugar de conversa" sem sentido, dado que os
verdadeiros assuntos do estado são geridos pelo executivo e especialmente
pelos militares. E mesmo o colorido leque de revisionistas e oportunistas
do Nepal viram limitados os seus movimentos políticos.
Apesar dos esforços do inimigo de classe para retratar os maoistas
como terroristas e responsáveis pela violência que tem reemergido
em todo o país, os relatos feitos ao UMQG indicam que a grande
maioria da população, incluindo muitos dos que tinham alimentado
esperanças irrealistas no progresso das negociações, estão a perceber
claramente o que está por trás das mentiras do governo e a considerá-lo
inteiramente responsável pela guerra.
Durante esse período, a classe dominante nepalesa virou-se para
os seus amos imperialistas, bem como para a Índia e a China, pedindo
apoio contra os maoistas. O Comité Permanente da Comissão Política
do PCN(M) aprovou uma resolução que salienta que "é agora claro
que a brutal agressão ao Afeganistão foi, objectivamente e em última
instância, uma parte da estratégia grotesca do imperialismo norte-americano
para aí estabelecer uma forte base militar para levar a cabo a sua
pilhagem e hegemonia na Ásia Meridional. O imperialismo ocidental,
sob a cobertura da guerra contra o terrorismo, está descaradamente
a avançar com o seu 'plano-geral' para esmagar sem piedade o direito
de rebelião praticado pelas massas oprimidas da Ásia Meridional.
Apanhadas num vulcão de ódio, raiva e rebelião das massas, as classes
dominantes de todos os países dessa região estão a jogar um jogo
sujo para assegurar a sua própria sobrevivência contra as massas,
dançando ao som das melodias do imperialismo, numa miserável subserviência."
(Boletim de Informação Maoista, Número 2, uma publicação
ocasional do PCN(M)).
Foi o regime reaccionário da Índia que assumiu a postura mais agressiva
em defesa do governo do Nepal. Prometeu fornecer vários helicópteros
ao ERN, bem como outro equipamento militar de todo o tipo. Jaswant
Singh, que na altura tinha as pastas de Ministro do Exterior e da
Defesa, foi o primeiro líder internacional a rotular oficialmente
o PCN(M) de terrorista, com tudo o que isso implica na actual situação
mundial. Nem o próprio Colin Powell fora tão longe na sua visita
a Catmandu a 18 e 19 de Janeiro, evitando cuidadosamente usar a
etiqueta de "terrorista". Ao mesmo tempo que prometia equipamento
militar e ajuda aos reaccionários do Nepal, Powell também enrolou
a sua língua para mencionar a necessidade de o governo "eliminar
a pobreza" e pôr um fim rápido ao Estado de Emergência.
Sob o capa de impedir que infiltrados paquistaneses usassem o Nepal
para entrar na Índia, o exército indiano iniciou uma grande concentração
de forças ao longo de toda a fronteira nepalesa. A 22 de Março,
o primeiro-ministro Deuba foi de chapéu na mão à Índia para se encontrar
com o primeiro-ministro Vajpayee. Todos os relatos indicam que o
ponto principal da ordem de trabalhos era a cooperação contra o
PCN(M) e, mais geralmente, contra as forças revolucionárias na região.
Deuba exigiu especificamente que fossem tomadas medidas contra as
forças na Índia que apoiam a Guerra Popular no Nepal1.
A guerra continuou a desenvolver-se mais ou menos do mesmo modo
durante vários meses. Cada dia era marcado por confrontos armados
entre as forças armadas populares e o ERN e por incursões de represália
das forças do inimigo. Vários tipos de mobilizações políticas ilegais
ocorreram sob a liderança do PCN(M) nas cidades e nas zonas rurais.
A 17 de Fevereiro, a guerra deu um salto para um plano mais elevado,
com uma enorme batalha na cidade distrital de Achham, alguns dias
após o sexto aniversário do início da Guerra Popular. (Também ocorreu
imediatamente antes do fim do prazo de três meses do Estado de Emergência
que tinha de ser submetido ao Parlamento, onde eram necessários
dois terços dos votos para o seu prolongamento.) O mundo foi surpreendido
quando o EPL levou a cabo um grande ataque em Achham. Durante seis
horas de combate feroz, foram mortos 143 soldados, paramilitaries
e agentes do governo. Enormes quantidades de armas e munições foram
levadas pelo vitorioso EPL. Um aeroporto vizinho foi também capturado
e outros 30 agentes de segurança inimigos foram mortos. Outra grande
vitória foi conquistada apenas alguns dias depois, quando a 21 de
Fevereiro os rebeldes maoistas atacaram violentamente um posto policial
em Shitalpati, no distrito de Salyan, matando pelo menos 34 polícias,
incluindo dois inspectores. Essas vitórias fizeram manchete em todo
o mundo.
Essas vitórias encorajaram as massas do Nepal, bem como os seus
amigos no mundo inteiro. Ao mesmo tempo, foram um golpe profundamente
desorientador e criador de pânico nas classes reaccionárias do Nepal.
Embora os reaccionários estivessem bem conscientes da certeza de
ataques no aniversário da Guerra Popular e embora o administrador
distrital de Achham tivesse feito apelos cada vez mais frenéticos
à protecção estatal, o estado teve de enfrentar a sua inabilidade
para defender todas as suas posições ao mesmo tempo, mesmo as relativamente
importantes, das forças revolucionárias que tinham estado a mostrar
a sua capacidade para atacar de repente em diferentes partes do
país. Com os sons da batalha ainda a ecoar, a bandh nacional
(greve geral) convocada pelo recém-formado governo popular central,
o Conselho Popular de Unidade Revolucionária, realizou-se com retumbante
sucesso.
Talvez nenhuma força tenha sido mais abalada que os oportunistas
e revisionistas. Embora tenham sido cuidadosos a representar os
respectivos papéis de fabricantes de ruídos contra o governo e o
Estado de Emergência, ao mesmo tempo que focavam os seus ataques
no PCN(M), no rescaldo de Achham não tinham mais espaço de mannobra.
Em particular, o PCN (Marxistas-Leninistas Unificados), conhecido
como "UML", o maior partido da oposição no Nepal, tornou-se essencial
para votar o prolongamento do Estado de Emergência. (Inicialmente
tinha surgido a ideia de que talvez os membros parlamentares do
UML pudéssem simplesmente organizar-se de modo a estar fora da sala
durante a votação, permitindo assim que o Estado de Emergência passasse
usando esse método baixo. Mas após as vitórias do PCN(M), parece
que os dirigentes do UML decidiram endossar total e activamente
o ataque governamental contra o povo.) Fazendo jus à sua natureza,
o UML, partido amigo e aliado de forças oportunistas e revisionistas
e mesmo de algumas forças comunistas indecisas a nível internacional,
na melhor tradição dos traidores da Segunda Internacional que apoiaram
os créditos de guerra na Primeira Guerra Mundial ou os revisionistas
que têm ajudado os reaccionários a combater os maoistas na Índia,
no Peru, na Turquia e noutros lugares, votou a 100 por cento pelo
prolongamento do Estado de Emergência. O único disfarce (ou será
apenas puro suborno?) que lhes foi concedido foi uma promessa do
governo de implementar esquemas de "redução da pobreza"!
O abalado Exército Real do Nepal redobrou os seus esforços de
vingança. Em meados de Março, anunciou com grande fanfarra que um
acampamento em Rolpa tinha sido invadido e 68 "maoistas" mortos.
No momento em que escrevemos, não sabemos a verdadeira história
desse desenvolvimento mas é importante salientar as palavras do
Presidente Prachanda apenas algumas semanas antes: "Qualquer nepalês
que escreva ou diga mesmo uma pequena verdade tem sido rotulado
"terrorista maoista" ou seu apoiante. Seja membro de um partido
político ou jornalista anti-autocracia, defensor dos direitos humanos,
trabalhador social ou intelectual de qualquer corrente ideológica;
seja inocente, esteja desarmado ou seja uma pessoa comum com uma
pequena ocupação para seu sustento nas zonas rurais; todos eles
tornam-se vítimas do terror militar e das atrocidades dos autocratas
feudais... Propaganda infundada e falsa sobre terem morto 200 maoistas,
quando apenas 14 valentes combatentes do Exército Popular de Libertação
atingiram o martírio ao capturarem a sede distrital de Solukhumbu,
matar camponeses inocentes nas aldeias mas gabando-se falsamente
sobre combates com os maoistas...
"Presentemente, o fundamental da direcção, desde o mais alto ao
mais baixo nível do nosso Partido, tem estado em segurança e entre
as massas, fazendo progredir com êxito as suas actividades. Claro
que o inimigo matou muitos camaradas e descobriu alguns dos nossos
melhores activistas em áreas urbanas e muitos foram capturados.
Capturaram o membro suplente da nossa Comissão Política, camarada
Rabindra Shrestha, na capital. Do mesmo modo, dúzias dos nossos
lutadores atingiram o martírio na verdadeira e vitoriosa guerra
contra os inimigos, atingindo níveis históricos de coragem e sacrifício.
Tendo capturado milhares dos nossos simpatizantes e apoiantes em
bazares e em áreas fáceis, o inimigo tem-os torturado mental e fisicamente.
Todos estes factos mostram as perdas do movimento. Mas quando as
comparamos com o sacrifício inevitável de defesa e desenvolvimento
da revolução contra a última e total força do inimigo, vemos que
são, realmente, muito pequenas. O sacrifício de uma parte para defesa
do todo é uma lei de ciência." (Entrevista com o Camarada Prachanda
disponibilizada ao UMQG, princípios de Fevereiro de 2002.)
Quase imediatamente após as vitórias do EPL em Achham e Salyan,
os EUA e os imperialistas britânicos começaram a cantar uma melodia
diferente. De acordo com os relatos da imprensa, "após uma visita
de fim-de-semana a Achham e Salyan, o embaixador dos EUA, Michael
E. Malinowski, comparou os maoistas aos terroristas da al-Qaeda
dirigida por Osama bin Laden. 'Em democracia, a morte mesmo de um
agente policial ou de um soldado é uma tragédia para a comunidade
e nacional. Saudo cada um e todos os agentes policiais e soldados
que morreram às mãos dos terroristas maoistas.'" (Spotlight,
1 de Março de 2002).
Os imperialistas britânicos enviaram a Catmandu o Sub-Secretário
de Estado Parlamentar dos Negócios Estrangeiros e da Commonwealth,
responsável pela Ásia Meridional, Ben Bradshaw, imediatamente após
os ataques. Ele afirmou, "a Inglaterra certamente que ajudará o
Nepal. Nós também tivémos na Irlanda do Norte a experiência de um
tipo semelhante de problema durante 35 anos. Há a necessidade de
um forte ataque a este tipo de terrorismo... A insurreição tem sido
desumana e inexorável. ... O governo recebeu grande simpatia da
comunidade internacional após a mais recente agressão desumana.
Qualquer governo democrático tem o direito de defender os seus cidadãos.
Após o ataque de 11 de Setembro [nos Estados Unidos], há uma maior
obrigação de parar o terrorismo no mundo. Nós já passámos legislação
para parar a propaganda terrorista." (Spotlight)
Todas as grandes revoluções, as que verdadeiramente despertaram
as massas aos milhões e que as mobilizaram para o combate pelo poder
político, só podem avançar confrontando novos problemas e descobrindo
novas soluções. A guerra popular prolongada, como todos os processos
revolucionários, está cheia de sons e fúria, de voltas e reviravoltas
súbitas, de períodos de rápido avanço que alternam com períodos
de desenvolvimento quantitativo. O drama do inesperado cria mesmo
condições mais favoráveis para fazer avançar a maior arma dos maoistas
- o papel dinâmico e consciente do ser humano empenhado em levar
a cabo a guerra.
O Partido Comunista do Nepal (Maoista), sob a liderança do seu
Presidente, Camarada Prachanda, tem guiado a revolução por mares
turbulentos e ainda sob fogo permanente não só dos reaccionários
do Nepal mas também cada vez mais dos principais imperialistas do
mundo, e dos reaccionários indianos.
É de extrema importância que o novo crescendo da Guerra Popular
no Nepal esteja a acontecer ao mesmo tempo que os imperialistas
dos EUA estão a levar a cabo pelo mundo inteiro a "guerra ao terrorismo",
centrada agora apenas a algumas centenas de quilómetros a oeste
do Nepal. O sacrifício e a coragem dos combatentes camponeses e
operários do Nepal está a tornar real e de uma côr esplêndida a
alternativa maoista, para todos os que se preocupam em a ver. Com
milhões de pobres crescentemente mobilizados para lutar, com um
amplo e profundo apoio de todos os sectores da sociedade, urbana
e rural, o rótulo débil e gasto de "terrorista" não pega de modo
algum. Um novo poder, o poder do povo, está a emergir e a consolidar-se
nos Himalaias, e já está a influenciar a situação revolucionária
em toda a vital região da Ásia Meridional, habitada por um quarto
da humanidade.
O que mais assusta os imperialistas não são apenas os golpes que
as forças armadas reaccionárias recebem às mãos do Exército Popular
de Libertação. É que os que estão no fundo da sociedade, os milhões
que constituem as massas trabalhadoras que foram menosprezadas pela
classe dominante do Nepal como pouco mais que "ferramentas falantes",
como os gregos antigos se referiam aos escravos, mostraram que podem
tomar o seu destino nas suas mãos e desafiar as grilhetas de séculos
de exploração e de tradição reaccionária. Eles estão a mostrar uma
vez mais que, como Mao afirmou, "o povo e só o povo é a força motriz
da história mundial." Numa era em que, usando as derrotas dos estados
socialistas do passado, os imperialistas lançaram um brutal ataque
de propaganda para dizer que não há nenhuma alternativa a um mundo
de divisão de classes e de exploração, o trovão dos Himalaias enche
os corações dos que ouvem o seu eco com esperança e determinação.
Nota Final
1 - O PCN(M) também teve alguma actividade na frente diplomática
com uma carta assinada pelo Camarada Prachanda como Presidente do
Partido e Chefe Supremo do Exército Popular de Libertação e pelo
Camarada Bhatterai como coordenador do Conselho Popular de Unidade
Revolucionária, dirigida às Nações Unidas, à Índia, aos EUA e aos
governos chinês e da União Europeia, para denunciar os esforços
dos reaccionários nepaleses para retratar a insurreição como "terrorista"
e apelando a "todos os países e orgãos internacionais, e particularmente
aos dois vizinhos próximos, a Índia e a China, para não interferirem
nos assuntos internos do Nepal e deixarem o povo nepalês decidir
o seu próprio futuro político." |